Comunicando ciência em bares: ‘Pint of Science’ Curitiba em foco

Fecha de recepción: 

25 de Marzo de 2020

Fecha de aceptación: 

28 de Abril de 2020

Fecha de publicación: 

23 de Junio de 2020

1 Introdução

Nos últimos anos vem crescendo significativamente o número as ações no mundo inteiro que têm como objetivo falar sobre ciência e seus avanços em locais externos aos institutos de pesquisa e universidades. A ideia é conversar sobre assuntos científicos e o seu papel na sociedade, que desperte curiosidade, de maneira descontraída, e os lugares escolhidos são os mais diversos, que vão desde museus, bares, restaurantes, redes sociais (Facebook, Instagram, Youtube, Podcast), entre outros.

Nesta perspectiva, no Brasil, desde 2015, um evento que vem conquistando um grande número de público é o Pint of Science (PoS), realizado em bares e restaurantes, durante três noites do mês de maio, que visa falar sobre ciência por meio de temas de impacto midiático para pessoas de diversas idades, diferentes níveis de escolaridade e distintos acessos a bens de consumo e culturais. É considerado uma estratégia inovadora de divulgar ciências, devido aos espaços em que as palestras ocorrem.

Por meio de uma busca não sistematizada por produções que têm como objeto de estudo o PoS, encontramos trabalhos nacionais e internacionais, devido ao Festival científico ter sido idealizado na Inglaterra, em 2013, e hoje ser realizado na Europa, Ásia, América do Norte, América do Sul e África. Robinson et al. [2017] abordou brevemente os sucessos, os desafios e as lições aprendidas após a primeira edição na cidade de Bangkok na Tailândia e destaca a diversidade cultural quando comparado ao mundo ocidental. O trabalho de Garrard [2018] apresenta a primeira edição do Festival no continente africano e, no âmbito nacional, encontramos pesquisas que investigaram o PoS em Vitória/ES [Ferracioli et al., 2018], Rio de Janeiro/RJ [Gonzaga, da Silveira e Lannes, 2017; Ribeiro et al., 2019], Campo Grande/MS [Marques et al., 2018], Juiz de Fora/MG [Miranda e Garcia, 2018], Uberlândia/MG [Schwaickardt, 2018] e Curitiba/PR [Santos e Silveira, 2019].

As pesquisas abordam estudos de público, temáticas das palestras, descrições gerais do evento, reflexões para possíveis melhorias, importância da divulgação científica e suas diversas modalidades, e elencam desafios e necessidades de superação, pensando na realidade social brasileira. Após a leitura desses estudos, acreditando no potencial ímpar do Festival e estando diretamente em contato com a organização do mesmo, notamos a carência de pesquisas que investigassem o evento a partir de elementos trazidos por sujeitos que sempre estiveram nos bastidores, ou seja, membros efetivos da equipe de coordenação. Portanto, o presente trabalho tem como objeto de estudo o último triênio do PoS Curitiba, com o objetivo de identificar e analisar as estratégias de Comunicação Pública da Ciência (CPC) adotadas pela equipe de coordenação local. Optamos por chamar de estratégia a utilização planejada de recursos disponíveis, assim como, o uso de condições favoráveis, de modo a atingir determinados fins.

Na sequência, o texto apresenta um quadro teórico sobre a Comunicação Pública da Ciência, seguida dos procedimentos metodológicos, resultados e discussão e conclusões.

1.1 Comunicação pública da ciência

Comunicar-se é a ação essencial para a sobrevivência da vida em sociedade. Segundo Schwaickardt [2018, p. 11],

[…] é importante compreender Comunicação Pública como a comunicação que ocorre na esfera pública, quer dizer, espaço de discussão sobre diferentes temas, de manifestação de opiniões, liberdade de expressão, logo, onde se manifesta a democracia.

Importante destacar que essa definição é entendida respeitando as características de cada sociedade e sua estrutura política dentro de uma relação estabelecida entre “o terceiro setor, o Estado, o mercado e a sociedade” [Schwaickardt, 2018, p. 12]. A Comunicação Pública (CP) também é defendida pelo autor como uma ferramenta a serviço do cidadão, atendendo necessidades, disseminando informações importantes, respeitando o espaço de debates e melhorando a compreensão do funcionamento da sociedade.

Dentro desse conjunto de ferramentas, encontramos diversos tipos de CP, sendo uma delas a Comunicação Pública da Ciência (CPC), que se constitui como um importante meio de Divulgação da Ciência e Tecnologia produzidas, ampliando os espaços de diálogo com diferentes interlocutores. É necessário garantir que toda a sociedade possua um entendimento básico de questões científicas, que permita aos indivíduos participarem de decisões políticas relacionadas a esse tema [Lewenstein e Brossard, 2010].

Encontramos na literatura vários termos que se referem à área, alguns tratados como sinônimos, outros não. Difusão científica, disseminação científica, vulgarização científica, divulgação científica, popularização da ciência, comunicação pública da ciência, entre outros, são alguns desses exemplos, e optamos por utilizar no presente artigo o termo CPC tendo em vista seu crescimento nas publicações das pesquisas na área, tanto no Brasil como em países da América Latina [Massarani, 2018].

Sánchez-Mora e Macías-Nestor [2018] defendem a CPC como um conhecimento multi, trans e interdisciplinar, sendo fundamentada num processo educativo e comunicativo pautado na aproximação entre a Ciência e a Cultura. Para alcançar a construção de uma cultura científica, utiliza-se de diversos meios, entre eles, entretenimento, informação, capacitação e educação, promovendo, então, a compreensão de termos científicos e a motivação pela ciência.

Além disso, esse tipo de ação pode ser entendida como uma ferramenta de inclusão social, principalmente em países como o Brasil que, de acordo com Moreira [2006, p. 11], “acumulou enorme conjunto de desigualdades sociais no tocante à distribuição da riqueza, da terra, do acesso aos bens materiais e culturais e da apropriação dos conhecimentos científicos e tecnológicos”. A CPC, realizada de maneira comprometida, possibilita ao indivíduo entender o contexto social no qual está inserido e o torna crítico para atuar politicamente em prol de mudanças.

Nenhum indivíduo deve ser privado de noções básicas sobre Ciência e Tecnologia, desde seus principais resultados, como também seus variados métodos, usos, riscos, limitações, interesses e determinações [Moreira, 2006]. Assim, defendemos a definição de CPC exposta por Schwaickardt [2018, p. 18], em que:

[…] se mostra preocupada em ir além não apenas do ponto de vista do conhecimento, mas também para com uma comunicação eficaz a respeito de ciência e tecnologia, e se vê como instrumento importante na construção de democracia participativa, essencial para o exercício pleno da cidadania. Um ciclo de retroalimentação em que a sociedade se beneficia e também faz parte consciente do processo de pesquisa.

É tentando atingir esse caminho, o da CPC, que nosso objeto de investigação está inserido. Pautado no trabalho de Lewenstein e Brossard [2010], podemos considerar o PoS como uma iniciativa de modelo de engajamento público, que por meio da realização de várias atividades, objetiva aumentar a participação dos indivíduos nas discussões de cunho político e científico. De acordo com o modelo de engajamento público, os autores afirmam que o foco é envolver ativamente os cidadãos com a ciência.

O embrião do Pint of Science1 (PoS) surgiu na Inglaterra no ano de 2012, a partir de um evento organizado por dois pesquisadores do campo das ciências médicas, que levaram pacientes diagnosticados com doenças como Alzheimer, Parkinson e esclerose para conhecer laboratórios de pesquisa responsáveis por colaborar com estudos para o avanço do tratamento dessas enfermidades. Após um resultado de sucesso, a ideia foi ampliar essa ação, com o principal objetivo de comunicar as pesquisas realizadas em universidades e institutos renomados em locais descontraídos, de maneira divertida, fascinante e inspiradora. Os locais escolhidos foram bares e restaurantes.

Em 2013, foi realizado o primeiro PoS em três cidades do Reino Unido: Londres, Oxford e Cambridge, o evento decolou rapidamente pelo mundo (Tabela 1), despertando o interesse da comunidade internacional de divulgadores da ciência, e em 2014, o Festival já constava na agenda global de eventos na área.


Tabela 1: Quantidade de eventos, cidades participantes e países. Fonte: Pint of Science, 2020.
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No Brasil, o evento foi trazido no ano de 2015 pela jornalista Denise Casatti, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo, campus São Carlos. Ele foi conquistando o público brasileiro e, em 2016, foi realizado em sete cidades, contemplando duas regiões da federação (Sudeste e Sul), em 2017 foi realizado em 22 cidades, no ano de 2018 foi realizado em 56 cidades, já em 2019 foi realizado em 85 cidades, estando presente nas cinco regiões da federação.

A equipe de coordenação do evento é dividida em nacional, regionais e locais. Também temos uma equipe de assessores científicos e monitores por cidade, a qual trabalha de maneira voluntária e é responsável por toda a organização do evento localmente. É importante destacar que os membros das equipes de coordenação têm que, obrigatoriamente, possuir um vínculo com universidades ou institutos de pesquisa e cabe a cada localidade a definição de quantos membros serão necessários e quais suas respectivas funções. Além disso, o evento é gratuito, e para ajudar com os custos a coordenação recebe doações e patrocínios. A seguir, descrevemos os procedimentos metodológicos para a constituição dos dados da pesquisa.

2 Procedimentos metodológicos

O presente trabalho se caracteriza como uma pesquisa qualitativa, uma vez que “não se preocupa em quantificar, mas, sim, em compreender e explicar a dinâmica das relações sociais que, por sua vez, são depositárias de crenças, valores, atitudes e hábitos” [Minayo, 2011, p. 24]. Trata-se de uma pesquisa hermenêutica, pois visa compreender as vivências das pessoas em suas realidades [Dittrich e Leopardi, 2015]. Além disso, Dittrich e Leopardi [2015, p. 114] afirmam que a pesquisa “parte da premissa de que o ser humano como um corpo-criante é o lócus dos acontecimentos da vida, os quais são expressos, após a interpretação da sua objetivação por meio da linguagem, na forma de conhecimento”.

A constituição de dados foi embasada em diferentes fontes e todas foram organizadas na Tabela 2.


Tabela 2: Informações constituídas sobre o PoS Curitiba. Fonte: Elaboração própria, 2020.
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Os dados foram constituídos por meio de informações retiradas do site oficial do Pint of Science, dos relatórios da coordenação de Curitiba e das fichas de avaliação preenchidas pelo público durante o evento dos anos 2017, 2018 e 2019. A Figura 1, a seguir, exemplifica o formulário de avaliação utilizado nas edições do evento.


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Figura 1: Formulário de Avaliação. Fonte: Pint of Science.


O formulário de avaliação foi aplicado pela coordenação durante os dias do evento, os quais continham perguntas de identificação do espectador; avaliação da palestra e do bar; meio de comunicação pelo qual o público tomou conhecimento do evento, e perguntas abertas para sugestões de temas para as próximas edições, e críticas.

Além dos dados supracitados, utilizamos também entrevista semiestruturada com os dois coordenadores locais do PoS Curitiba. As entrevistas semiestruturadas são dirigidas com foco, no entanto, permitem uma flexibilidade nas perguntas, sendo que o entrevistador poderá adicionar novas perguntas conforme o interesse sobre o tema. Ademais, “favorece não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade” [Triviños, 1987, p. 152]. As entrevistas foram realizadas no segundo semestre de 2019, com o professor aposentado Luís, o qual foi coordenador nos anos de 2017 e 2018, e com o professor Fabrício, atual coordenador do PoS Curitiba. Optamos por utilizar codinomes para preservar a identidade dos entrevistados. As entrevistas duraram em média 35 minutos e foram gravadas em áudio, para posterior transcrição2 e análise.

Feita a organização de todos os dados, estes foram tratados a partir da Análise de Conteúdo [Bardin, 2011], buscando um rigor na compreensão para além da aparência do real, ou seja, superando os significados imediatos do tema pesquisado. Sendo assim, identificamos núcleos de sentido presentes no corpus de análise, tendo como unidade seu próprio tema. Após a leitura dos materiais na íntegra, foi realizada a organização da codificação por meio da classificação e agregação [Bardin, 2011].

A escolha das categorias de análise, definidas a posteriori, buscaram identificar as estratégias adotadas no último triênio pelo PoS Curitiba, visando analisar os pressupostos da CPC contemplados, a partir de todas as fontes de informação. Portanto, foram definidas cinco categorias, que serão apresentadas e discutidas a seguir: i) Compreensão sobre o entendimento de divulgação científica; ii) Locais de realização do evento; iii) Palestrantes e temas de palestra; iv) Táticas de efetivação do PoS Curitiba; e v) Ações futuras.

3 Resultados e discussão

O PoS Curitiba teve sua primeira edição no ano de 2017, por meio da mobilização e engajamento de docentes da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Conforme as orientações nacionais, os coordenadores locais planejam os três dias de evento em suas localidades e a coordenação nacional é responsável pelo contato com os idealizadores do evento na Europa [Pint of Science, 2020]. Os membros da organização do PoS Curitiba, em sua maioria, são professores, pós-graduandos e graduandos da UFPR, majoritariamente do Departamento de Física e do Departamento de Química e, de acordo com os relatórios, a equipe é alterada a cada edição. Em 2018, além dos departamentos citados, também participaram da organização graduandos dos cursos de Ciências Biológicas e Relações Públicas. Já em 2019, a organização contou com a participação de professores e estudantes do Departamento de Física da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Na sua primeira edição, em 2017, a equipe contou com 15 membros na comissão, sendo um coordenador local, três coordenadores de bar e 11 apoios; já em 2018 foram um coordenador local, cinco coordenadores de bar, um fotógrafo e 13 apoios; em 2019, um coordenador local, oito coordenadores de bar, dois fotógrafos e 16 apoios. O coordenador local é responsável por definir os temas das palestras e palestrantes junto com os coordenadores de bar, entrar em contato com os bares e com os palestrantes, enviar o título e o resumo das palestras para a coordenação nacional e, ao final do evento, encaminhar um relatório para a coordenação nacional. O coordenador de bar, além de participar da escolha e organização das palestras e palestrantes, tem a função de organizar o bar nos dias do evento e apresentar o palestrante para o público; já o apoio é responsável por entregar as fichas de avaliação ao público, contar a quantidade de público e repassar as perguntas ao palestrante. Foram escolhidos como participantes da pesquisa dois professores com experiência na Coordenação Local e que estiveram presentes nas três edições do evento, por apresentarem contribuições relevantes sobre toda a dinâmica do Festival.

Na sua primeira edição em Curitiba, o evento conteve um público de aproximadamente 1.870 pessoas no total, 2.364 em 2018 e 2.450 em 2019. São números que podem ser considerados expressivos, tendo em vista que o evento acontece em dias da semana — segunda, terça e quarta-feira. Além disso, os bares não abrem normalmente na segunda-feira, apenas quando o evento é realizado. Vale mencionar que, durante a semana, os bares em Curitiba são considerados com baixo movimento no período noturno, quando comparados aos finais de semana, mas nos dias do evento os bares operam com sua lotação máxima. Outro ponto que merece ser mencionado e que comprova a boa aceitação do evento é com relação ao mês em que acontece o Festival, em maio,3 uma época na qual a temperatura já começa a baixar na capital mais fria do Brasil, mas que não impede o público de ir prestigiá-lo.

A seguir, apresentamos as categorias analisadas, buscando identificar as estratégias de CPC adotadas pelo PoS Curitiba.

i) Compreensão sobre o entendimento de divulgação científica. Buscamos, por meio dessa categoria de análise, identificar a concepção de divulgação científica dos sujeitos de pesquisa, que estiveram à frente da coordenação local do PoS Curitiba durante o último triênio. O professor Luís é licenciado em Física, mestre e doutor em Física, tendo trabalhado na UFPR desde 1993, com o campo do Ensino e da Física Teórica. Fez parte do grupo que manifestou interesse em trazer o evento para a cidade de Curitiba em 2016, participando de reuniões e estruturando a equipe local que organizou a primeira edição em 2017, além de ter ocupado o cargo de coordenador local até 2018. O professor Fabrício é graduado em Física, mestre e doutor em Física Teórica, e atua como docente do Departamento de Física da UFPR desde 2014; participou como coordenador de bar nas edições de 2017 e 2018, assumindo a coordenação local no ano de 2019.

Quando questionados sobre o interesse em se envolver com o evento, foi possível identificar concepções sobre o entendimento do que é divulgação científica, conforme os excertos:

É uma maneira de nós divulgarmos a ciência em um ambiente alternativo né…aquela coisa que até hoje faz falta porque está toda essa briga contra a Universidade, porque o povo, a população não sabe o que nós fazemos aqui dentro. Não sabe que os cientistas fazem coisas relevantes. [Luís — grifo nosso].

É você aproximar o pesquisador do público em geral, sem um intermediário, uma empresa, que muitas vezes tem a boa vontade, mas não tem às vezes o conhecimento necessário para traduzir aquela informação científica da maneira correta, as vezes aparece umas informações estranhas e você cortando o circuito, botando um pesquisador direto com a população, primeiro faz que a informação chegue o mais correta possível e depois tira esse estigma que tem da ciência o cara que trabalha no laboratório é um cara inacessível, que está lá na torre do castelo. [Fabrício — grifo nosso].

Nos trechos supracitados, os coordenadores deixam evidente o distanciamento entre a academia e a população em geral. Essa informação vai ao encontro de Moreira [2006] quando ressalta que a informação e a educação científica ainda são restritas a uma pequena parcela da população brasileira. Indo além, a afirmação pode ser considerada atual, pois como mostrou os dados de percepção pública da Ciência & Tecnologia (C&T) no Brasil [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019], apenas 14% dos brasileiros têm consumido na internet e redes sociais informações sobre C&T, e ainda, cerca de 7% dos entrevistados visitaram um museu de C&T nos últimos 12 meses, e apenas 5% participaram da Semana Nacional de C&T.

Nota-se assim, a falta de participação de atividades em espaços e eventos de difusão científico-culturais, principalmente, por conta da falta de acesso a esses locais. Por isso, “cabe à sociedade, à comunidade científica e ao governo unir forças para difundir a C&T no País” [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019, p. 15].

Em pesquisas semelhantes realizadas nos Estados Unidos no ano de 2002, os números baixos também são preocupantes, sendo que apenas 5% do público entrevistado foi considerado cientificamente alfabetizado e 20% se mostraram interessados e informados sobre temas científicos [Lewenstein e Brossard, 2010]. Dessa forma, acreditamos que o PoS pode servir como uma ligação entre a população e as pesquisas que são desenvolvidas em universidades e institutos.

Ainda, na fala de Fabrício, é enfatizada a necessidade de desmistificar a imagem dos cientistas como seres inacessíveis, isolados em seus laboratórios, rodeados de equipamentos, livros, cadernos de anotações, e guardiões de informações altamente sigilosas [Chambers, 1983]. Contudo, mesmo existindo esse distanciamento, a maioria da população manifesta apoio à pesquisa, acrescido de confiança e prestígio aos cientistas [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019].

ii) Locais de realização do evento. A primeira edição em Curitiba foi realizada em três bares durante as três noites do evento, com a programação composta por nove palestras; em 2018 foram cinco bares totalizando 15 palestras e; em 2019, foram seis bares contando com 18 palestras. Conforme o evento foi se consolidando, a procura pelo mesmo aumentou grandemente e, devido a isso, a coordenação local teve que aumentar a quantidade de bares para que pudessem contemplar todo o público do Festival. Essa afirmação é trazida nos trechos a seguir:

Para você ter uma ideia, neste primeiro Pint todos os locais lotaram. Foi uma coisa fantástica, tanto que aumentamos os bares. Teve gente até para fora da porta tentando entrar e tinham filas e filas lá fora. [Luís — grifo nosso].

Em todos os lugares que participei nos dois primeiros anos eu fiquei nos bares sempre teve um bom público, gente interessada que tá lá para contribuir com a discussão com muita pergunta, muita interação com o pesquisador, e esse ano também fiquei indo em alguns bares durante os três dias, e todos os bares estavam lotados com bastante discussão, bastantes perguntas independentes. [Fabrício — grifo nosso].

Nas três edições do evento, dois bares se mantiveram como parceiros e, nos anos de 2018 e 2019, três deles foram palcos de realização do PoS, abrindo exclusivamente para atender o público interessado em ouvir e conversar sobre Ciência. Dos sete bares, restaurantes e cervejarias que receberam o PoS Curitiba, apenas um não fica localizado na região central da cidade. Na fala de um dos entrevistados é possível ver um dos critérios de escolha dos bares:

[…] o público pode falar o que achou da palestra, do local, da organização, sugerir temas. […] depois do evento a gente troca as informações: como é que foi tal palestra, qual palestrante foi bem ou não, tal bar foi bem, atendeu as expectativas ou deu alguma coisa errada, o que aconteceu lá… então quando a gente se reúne de um ano para o outro a gente leva em conta isso. Por exemplo, a gente vai começar a se reunir para decidir quais os bares participam o ano que vem, aí a gente vai discutir o que deu certo no bar, o que não deu, o que pode melhorar, será que o bar pode melhorar, então junto com isso e com as estatísticas do público a gente já define. Teve bar que a gente não renovou, não chamou do primeiro para o segundo ano porque teve uma avaliação ruim, e a gente também tinha percebido que a coisa não funcionou muito bem, aí essa avaliação do público ajudou a gente a decidir e não chamar aquele bar. [Fabrício — grifo nosso].

Durante as três edições do evento, apenas um bar foi retirado do circuito nos anos seguintes. O evento em Curitiba mantém a tradição de estabelecer parcerias desde a primeira edição, em 2017. Isso é bastante promissor, pois define uma característica do evento na cidade e contribui com os comerciantes que abriram suas portas e continuam colaborando com ações de CPC. Um fator que deve ser levado em consideração é a estrutura física do local: lugares abertos prejudicam a sonoridade das palestras, devido aos ruídos e acústica [Ferracioli et al., 2018]. Os locais escolhidos durante o triênio do PoS Curitiba são bares fechados, pensados também devido às baixas temperaturas no mês de maio, e devem possuir infraestrutura para o oferecimento de aparelhos de som e imagens.

Como os bares selecionados são, em sua grande maioria, da região central de Curitiba, acreditamos que é um dos limitantes para que toda a população curitibana possa participar do evento, visto que, dificultam o acesso de pessoas que moram em regiões afastadas do centro da cidade. E ainda, apesar do PoS ser gratuito, o evento ocorre em estabelecimentos que não possuem um menu de degustação com preço acessível, podendo dificultar em uma inclusão social efetiva. Para Moreira a inclusão social é:

[…] possibilitar que cada brasileiro tenha a oportunidade de adquirir conhecimento básico sobre a ciência e seu funcionamento que lhe dê condições de entender o seu entorno, de ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho e de atuar politicamente com conhecimento de causa. [Moreira, 2006, p. 11].

Ainda, para o autor, a inclusão social na Ciência não é apenas para as populações mais carentes, mas também outras parcelas da população que encontram-se excluídas no que se refere a um conhecimento científico e tecnológico básico. A partir dos relatórios da coordenação local, vimos que o público do PoS é majoritariamente composto por estudantes e professores universitários, ou seja, apenas um fragmento da população participa do evento, mostrando que o Festival não possui uma inclusão social efetiva. Esse resultado também é obtido por Ribeiro et al. [2019] em relação ao PoS Rio de Janeiro em 2018, no qual cerca de 58% do público estava realizando a pós graduação e 32% cursando a graduação, indicando também que o evento atingiu apenas a população com mais alta escolaridade.

iii) Palestrantes e temas de palestra. Segundo os coordenadores, primeiramente são escolhidos temas polêmicos que o público possa se interessar. Após as definições dos temas, procuram-se pesquisadores que trabalham com tais assuntos. Os palestrantes precisam encaminhar um título que desperte o interesse do público, além de um resumo. Também é solicitado ao pesquisador que a palestra tenha uma linguagem mais informal, para que todos os participantes possam compreender. A seguir, descrevemos trechos dos entrevistados que remetem a essas afirmações:

Bom, primeiro lugar nós estabelecemos quantos bares. Três bares, uma palestra em cada bar daria nove palestras. A nossa ideia era fazer uma distribuição: química, física, matemática, biologia, geologia… talvez cursos que tenham mais ênfase em pesquisa mesmo. […] Assuntos que sejam polêmicos, bacanas e que vai atrair as pessoas para aquele lugar. Não adianta fazer uma palestra que não vai atrair as pessoas. […] Então, mais ou menos definidos os temas, procuramos o professor […] dai manda o resumo, o que ele quer falar, título. O título tem que ser bacana para chamar a atenção e o assunto tem que se dar de uma maneira para quem está em uma mesa de bar — de repente eu e você vamos em um bar e “oh!” que está acontecendo aqui? — está tendo um evento aqui! Para que nós possamos nos interessar para aquele evento o professor tem que ter uma linguagem diferenciada para um nível informal. [Luís — grifo nosso].

A gente define os temas gerais e tentamos pegar temas polêmicos, como por exemplo, agrotóxicos, vacinas, daí a gente foi atrás dos pesquisadores primeiros desses temas mais interessantes, mas tentando pegar vários temas diferentes. Às vezes, o público leigo pensa que ciência só é feita no laboratório, uma coisa mirabolante. Você tem médico, cientista social, letras, filosofia, então a gente tenta mostrar os vários campos de atuação do cientista, seja ciência social, exatas, biológicas. […] A gente pede que a palestra seja uma palestra que alcance qualquer um, qualquer nível de instrução, qualquer área de conhecimento que seja bem geral para mostrar como que é aquela pesquisa, aquele resultado dele. [Fabrício — grifo nosso].

Os trechos nos mostram alterações nas percepções dos coordenadores, pois, na primeira edição do PoS, os eixos das palestras contemplaram apenas as seguintes Áreas das Ciências: cinco palestras de Exatas, três de Biológicas e uma de Tecnologias; em 2018 foram cinco de Biológicas, quatro de Exatas, duas de Humanidades, duas de Artes, uma de Agrárias e uma de Tecnologia; em 2019 foram cinco de Humanidades, quatro de Biológicas, três de Agrárias, três de Tecnologia, duas de Exatas e uma de Saúde. Mas, ambos os coordenadores citam que optaram por temas que fossem polêmicos, os quais podemos exemplificar com os seguintes títulos das palestras realizadas durante o evento: Mosquito Aedes Aegyppi e aranha marrom: como a ciência pode ajudar a controla-los?, na primeira edição; Desafios na Conservação de Abelhas Urbanas, em 2018 e Gritos silenciados: violência obstétrica contra mulheres negras, em 2019.

Outrossim, nos excertos, os coordenadores comentam que é requisitado aos palestrantes uma fala de nível mais informal. Apesar da solicitação dos mesmos, no relatório de 2018 e na ficha de avaliação do público no ano de 2019, são apresentados questionamentos por parte do público sobre a linguagem dos pesquisadores, solicitando falas mais apropriadas para um público leigo, ou seja, nas falas de alguns palestrantes a linguagem acadêmica foi predominante, dificultando o entendimento do tema. Segundo Sánchez-Mora e Macías-Nestor [2018], a aprendizagem com caráter informal representa uma posição de CPC que compartilha uma visão de público global, ou seja, assume que a participação do público o fará se interessar por Ciência e Tecnologia.

Com os dados do site do PoS nacional, podemos observar que em 2017 os palestrantes, em sua maioria, são pesquisadores da UFPR, e apenas uma pesquisadora tem vínculo com o Instituto Carlos Chagas — FIOCRUZ/PR. Já em 2018, 12 palestrantes são da UFPR, dois da Universidade Tecnológica Federal do Paraná — UTFPR e um palestrante do Instituto de Terras, Cartografia e Geologia do Estado do Paraná. Em 2019, foram 11 palestrantes da UFPR, dois da UTFPR, um do Instituto Federal do Paraná, um da Fundação Oswaldo Cruz, um da Embrapa Florestas, um do Museu Paranaense e um palestrante da Pontifícia Universidade Católica do Paraná — PUC-PR. Este cenário reafirma um dos objetivos do PoS, o de divulgar a pesquisa principalmente de instituições públicas [Pint of Science, 2020], que fica evidenciado na fala do Fabrício:

A gente deu prioridade para pesquisas feitas em universidades e institutos públicos. […] A gente queria mostrar o que era feito, tentar rebater o que se fala da Universidade. Tem gente que acha que qualquer um pode questionar resultado científico. [Fabrício — grifo nosso].

O excerto de Fabrício destaca que a escolha por palestras de cientistas vinculados a instituições públicas foi prioritária para o evento. Isso pode nos revelar que o PoS teve como preocupação mostrar onde está sendo investido o dinheiro público. Além disso, é uma forma da população ser informada que nas universidades são feitas pesquisas, pois como apontou o documento sobre percepção de C&T [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019] apenas 12% dos entrevistados souberam citar esses locais, ao serem indagadas sobre lugares que produzem conhecimento científico. Para Moreira [2006], o Brasil necessita criar estratégias para a CPC, visto que há várias lacunas e fragilidades no desenvolvimento e implementação de programas e políticas públicas na Divulgação da Ciência e educação científica.

iv) Táticas de efetivação do PoS Curitiba. A partir da análise dos dados, foi possível identificar algumas táticas utilizadas pela equipe de coordenação do Festival, que serviram na organização e aprimoramento das últimas edições. A primeira delas foi o investimento na divulgação do evento, que é feita massivamente por meio do site oficial, do site do evento local, no site da UFPR (a Assessoria de Comunicação da UFPR tem uma parceria com o evento, oferecendo todo o suporte para ajudar na divulgação e produção de conteúdo), jornais locais, rádio, página oficial no Facebook,4 que possui quase 28 mil inscritos, e por meio de eventos criados nessa rede social. A coordenação nacional oferece todo o suporte para o marketing, incluindo a disponibilização da logomarca para confecção de cartazes, camisetas e todo material audiovisual. As ações de divulgação contam com o apoio de todos os membros da equipe local, que devem manter ativas as redes sociais, para um maior alcance de público.

Outro procedimento adotado pela equipe do PoS Curitiba é a avaliação realizada ao término de cada edição, elaborando um relatório exigido pela coordenação nacional, e a análise cuidadosa dos questionários de avaliação aplicados ao público durante os três dias de palestras. O relatório enviado à equipe nacional difere as informações a cada edição, mas basicamente possuem o nome dos locais de realização, quantidade de público presente por dia, faixa etária, profissão, opinião sobre os temas das palestras, opinião sobre o atendimento nos bares e finanças, que detalham possíveis patrocínios e os gastos.

Foi por meio de uma dessas análises das avaliações do público que os coordenadores locais identificaram a questão da paridade de gênero entre os palestrantes, outro recurso considerado necessário para garantir a efetivação do evento, conforme o excerto a seguir:

[…] no segundo Pint [2018] uma coisa que a gente não tinha notado na organização, e que o público reclamou, e a gente remediou neste ano [2019], foi que teve pouca participação de mulheres. A gente, ainda na inocência de preparar a grade olhando só pelo tema da pesquisa, não percebemos que colocamos as mulheres no mesmo dia, então eu levei um puxão de orelha do pessoal que foi na palestra da professora [nome da palestrante] que tinha poucas mulheres. [Fabrício — grifo nosso].

Vale ressaltar que durante as duas primeiras edições, o evento conteve críticas referentes à falta de pesquisadoras, já em sua terceira edição, não houve essas críticas. Na última edição do evento, em 2019, teve a participação de oito palestrantes mulheres e dez homens, números que vem ganhando em paridade quando comparados com a primeira edição, que só teve a participação de uma palestrante [Santos e Silveira, 2019].

v) Ações futuras. Segundo o relatório da coordenação de 2017, cerca de 60% do público que participou do Festival foi majoritariamente formado por estudantes e por professores universitários, o restante do público considerado pela coordenação como ‘outros’ conteve a presença de profissionais de várias áreas, como engenheiros, funcionários públicos, comerciantes. Segundo os coordenadores locais, essa participação se manteve durante as demais edições. Essa informação é evidenciada no trecho a seguir:

Eu ainda acho que não atingimos o necessário. Tinha que atingir a população mais carente, porque de acordo com nossos relatórios a maioria eram estudantes universitários […] acho que deveríamos procurar mais a periferia, a população mais carente que não tem acesso a informação. [Luís — grifo nosso].

A gente tenta fazer para tentar chamar o pessoal de fora da universidade, principalmente na verdade, uma das ações principais do Pint acho que a gente ainda não conseguiu nestes últimos, que é trazer mais povo de fora da universidade do que de dentro da universidade. Então, a ação principal seria a gente conseguir levar esse pessoal, esse público geral para o bar. A gente faz lá aquelas estatísticas no final do evento e percebemos que tem o pessoal de fora, mais a maior parte é o pessoal acadêmico, da universidade. Não sei pensar melhor como é que poderia fazer melhor isso, chamar esse pessoal de fora, não sei se pela mídia ou por outros bares locais mais espalhados pela cidade. [Fabrício — grifo nosso].

Ressoa nas palavras de Luís que a ideia principal do PoS é democratizar a Ciência, ou seja, atingir toda a população, contudo, há muitas pessoas que não conseguem acessar o mínimo de bens de consumo e culturais. Talvez isso esteja ancorado nas características e localidades dos bares, que recebem com maior frequência um público de classes sociais mais elevadas e residem na região central da cidade. Por isso, tanto Luís quanto Fabrício destacam a necessidade de fazer o evento em espaços afastados do centro de Curitiba, na tentativa de atingir esse público.

Esse fator também é visto no documento que materializou os hábitos culturais e o acesso da população à C&T [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019], em que o percentual de pessoas com renda menor que um salário mínimo que visitaram ou participaram de atividades voltadas à popularização da ciência cresceu somente 2,9% comparado a 13,2% de pessoas com renda superior a dez salários mínimos.

Ao recuperar as cinco categorias analisadas é possível compreender elementos centrais que fazem parte da constituição do evento Pint of Science e que vem sofrendo modificações e adaptações a cada nova edição, buscando atingir aspectos importantes e necessários para a realização da CPC. O trabalho de Duarte [2007, p. 3] indica alguns itens fundamentais da CP a partir da gestão do público:

[…] a) identificar demandas sociais; b) definir conceitos e eixos para uma ação pública coerente e integrada; c) promover e valorizar o interesse público; d) qualificar a formulação e implementação de políticas públicas; e) orientar os administradores em direção a uma gestão mais eficiente; f) garantir a participação coletiva na definição, implementação, monitoramento, controle e viabilização, avaliação e revisão das políticas e ações públicas; g) atender as necessidades do cidadão e dos diferentes atores sociais por obter e disseminar informações e opiniões, garantindo a pluralidade no debate público; h) estimular uma cidadania consciente, ativa e solidária; i) melhorar a compreensão sobre o funcionamento do setor público; j) induzir e qualificar a interação com a gestão e a execução de serviços públicos; e, k) avaliar a execução das ações de interesse coletivo.

Considerando esses aspectos, acreditamos que o triênio do PoS Curitiba procurou identificaar as demandas sociais, promovendo e valorizando o interesse do público. Além disto, orientou a equipe de coordenação local na busca de melhorias a cada edição, atendeu a maioria das sugestões do público participante, qualificou a interação com o serviço público e avaliou a execução das ações que foram realizadas.

Porém, é possível perceber que muitos pontos não foram atingidos, ou seja, temos um caminho grande a percorrer para conseguir envolver públicos distintos socialmente, culturalmente e economicamente de modo integrado. O Festival tem a característica de ser dinâmico, e incluir diferentes públicos nos mostra ser uma peça fundamental para atingir todas as características da CPC, além de criar uma identidade brasileira ao PoS.

4 Conclusão

O PoS Curitiba completou três anos de edição em 2019, triênio considerado de grande sucesso na capital paranaense. A partir desse estudo, acreditamos ter sido possível identificar e analisar as estratégias de CPC adotadas pelo evento, com destaque para os aspectos positivos que vêm se mantendo a cada edição, assim como pontos que merecem ser problematizados com a equipe de coordenadores, que exigem mudanças para garantir o avanço e um novo perfil de público.

Dentre os aspectos positivos, enfatizamos que o Festival em Curitiba vem ganhando expressividade a cada ano, com a equipe de coordenação gerida por docentes e pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, majoritariamente da área de Ciências Exatas; conseguiu estabelecer parcerias sólidas com bares, restaurantes e cervejarias, que mantém o apoio a cada ano; se preocupa em ouvir e atender as demandas do público, principalmente com relação às palestras e palestrantes, ou seja, a diversidade das áreas de conhecimento abordadas nas palestras e a paridade de gênero entre os palestrantes.

Como principais problematizações, o grande gargalo, como indicado pelos coordenadores locais, é com relação ao perfil do público: o evento precisa chegar até as pessoas que não têm acesso à informação científica e tecnológica séria e de qualidade. Acreditamos que as escolhas dos locais de realização do evento estejam diretamente relacionadas com o público que o PoS vem atingindo.

Por meio das entrevistas com os coordenadores locais foi possível identificar uma concepção de CPC pautada no entendimento de que é preciso corrigir um déficit de conhecimento científico que falta na população, e eles compreendem o Festival como uma ferramenta valiosa para superar este aspecto. Esse entendimento é bastante delicado, pois não leva em consideração o conhecimento científico que de fato tem implicação direta com a vida pessoal da população, ou seja, o conhecimento que tem aplicação na realidade material dos indivíduos.

Portanto, acreditamos que o PoS possui um potencial ímpar como ferramenta para a Divulgação Científica, mas ainda não promoveu a criação de conceitos e eixos para uma ação pública coerente que atenda às necessidades concretas dos diferentes atores sociais brasileiros, garantindo sua participação no debate público e melhoria nas condições de vida.

Apontamos a urgência e a necessidade de outros estudos, talvez em nível nacional, para pensarmos em conjunto como o Pint of Science pode ampliar as estratégias da Comunicação Pública da Ciência no Brasil. Não podemos perder de vista que é um evento nos moldes europeus, que tem espaço no território brasileiro, porém, precisamos incorporar novos elementos culturais, sociais, econômicos e políticos.

Referências

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Autores

Débora Cristina Santos — Graduanda em Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Membro da equipe do Pint of Science Curitiba desde 2018. E-mail: deehcrissantos@gmail.com.

Luciane Jatobá Palmieri — Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência UNESP/Bauru). E-mail: luciane.jatoba@unesp.br.

Camila Silveira — Professora Adjunta no Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e em Matemática e Mestrado Profissional em Química da UFPR. Membro da equipe do Pint of Science Curitiba desde 2017. E-mail: camila@quimica.ufpr.br.

Como citar

Santos, D. C., Palmieri, L. J. e Silveira, C. (2020). ‘Comunicando ciência em bares: Pint of Science Curitiba em foco’. JCOM – América Latina 03 (01), A03. https://doi.org/10.22323/3.03010203.

Notas

1Site internacional do evento: https://www.pintofscience.com/.

2A transcrição apresentada nos Resultados e Discussão são trechos retirados das falas dos entrevistados, que passaram por uma adequação a norma culta da língua portuguesa, retirando apenas alguns vícios de linguagens. Destacamos que não houve alteração de nenhum conteúdo das falas.

3Atendendo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), o evento em 2020 foi adiado e acontecerá nos dias 8, 9 e 10 de setembro, devido a pandemia de COVID-19.

4Endereço da página oficial do evento no Facebook: https://www.facebook.com/pintofscienceBR/.