Ciência e teatro em quatro atos

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Resumen: 

O livro “Ciência em Cena: teatro no Museu da Vida”, evidencia a reaproximação e simbiose entre arte e ciência em quatro atos, como em uma peça de teatro, e conduz o leitor a explorar as conexões entre teatro, ciência e divulgação científica dentro e fora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma relevante instituição de pesquisas brasileira. A obra merece aplausos por retratar com brilhantismo como um sonho feito de ciência e arte se tornou realidade e se destaca como uma referência essencial para compreensão da relação entre teatro e ciência no cenário contemporâneo brasileiro.

Fecha de recepción: 

11 de Octubre de 2019

Fecha de aceptación: 

12 de Octubre de 2019

Fecha de publicación: 

21 de Octubre de 2019

Resenha de Livro

Almeida C. e Lopes, T. eds. (2019).
Ciência em Cena: teatro no Museu da Vida.
Rio de Janeiro, Brasil: Museu da Vida/Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

Para um olhar menos atento ou acostumado a ver o conhecimento de forma compartimentalizada, o teatro e a ciência podem parecer áreas distantes e sem afinidades. No livro “Ciência em Cena: teatro no Museu da Vida”, editado pelas pesquisadoras Carla Almeida e Thelma Lopes, fica bem claro, desde o “Primeiro Sinal”, que os aproximadamente 200 anos de distanciamento entre arte e ciência [Miller, 2014] estão chegando ao fim. Essa evidente reaproximação e simbiose é roteirizada no livro como em uma peça de teatro, a qual conduz o leitor a explorar as conexões entre teatro, ciência e divulgação científica dentro e fora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma relevante instituição de pesquisas brasileira. O primeiro ato contextualiza estas conexões historicamente e encaminha o leitor para o segundo ato, o qual conta como um sonho feito de ciência e arte se tornou realidade em um dos importantes centros de geração de conhecimento do Brasil. O leitor chega ao ápice no terceiro ato quando é convidado a refletir sobre a importância de se explorar a relação entre teatro e ciência como objeto de pesquisa. Para finalizar, o quarto ato relata a relevante e necessária experiência de teatro acessível no Museu da Vida.

Uma visão mais superficial sobre a relação entre arte e ciência normalmente se limita a citar as obras de Leonardo da Vinci ou a divulgar projetos de ciências através da beleza das artes. A produção acadêmica ainda tem um longo caminho pela frente para explorar essa relação com profundidade, sem perder de vista o fato de que a relação arte-ciência é uma via de mão dupla. No primeiro ato, “Ciência, Arte e Divulgação Científica”, as autoras abordam essa complexa relação com a necessária profundidade que o tema exige. Desde a quase indissolubilidade entre arte, ciência e filosofia na Grécia Antiga, passando pelas aproximações e distanciamentos ao longo da história até o Manifesto ArtScience [Root-Bernstein et al., 2011]. Este último é um dos documentos contemporâneos mais audaciosos e pertinentes ao propor que a relação arte-ciência transcenda e abranja todas as disciplinas ou formas de conhecimento. Esse preâmbulo do livro é essencial para compreender a relação entre ciência e teatro nos dias de hoje e o potencial do teatro na divulgação científica. Além disso, é capaz de despertar ainda mais a curiosidade sobre o interesse de Berthold Brecht (1898–1956), um dos mais importantes dramaturgos do século XX [Lyon, 2014] pela vida de Galileu Galilei (1564–1642) ou, ainda, sobre as mais de 100 peças de teatro produzidas com temas científicos nos últimos quatro séculos.

Boa parte da população que transita pela zona norte do Rio de Janeiro (Brasil) passa diariamente pela Fiocruz sem saber ao certo o que se passa naquele imenso campus. Talvez imaginem que se façam vacinas e pesquisas de AIDS, sem ter ideia da magnitude da produção científica que é realizada naquela instalações. Porém, é bastante provável que poucos imaginam que lá existe um espaço expressivo dedicado à informação científica e à expressão artística. O segundo ato do livro conta com detalhes a história do teatro na Fiocruz. Além da visão vanguardista e da perseverança de todos os envolvidos, o que surpreende na narrativa é o envolvimento ativo de profissionais de teatro em todo o processo. Esse envolvimento diferencia as produções por não serem apenas uma tentativa amadora de utilização da arte como instrumento de expressão da ciência, mas sim uma forma de produção transdisciplinar que envolve profissionais da ciência e do teatro. Se, por um lado, o livro pode perder um pouco do ritmo com muitas páginas dedicadas a depoimentos pessoais de protagonistas dessa história, por outro lado, é justamente esse aspecto humano, pessoal e sentimental que levam o leitor a compreender a trajetória que transformou um sonho em realidade.

No campo acadêmico, a criação de protocolos e o embasamento teórico são fundamentais para o estabelecimento e fortalecimento de um novo campo de pesquisa. O campo de interação entre arte e ciência tem evoluído muito nas últimas décadas [Malina, 2016], mas talvez ainda esteja longe de ter seus protocolos de pesquisa definidos. No entanto, no terceiro ato do livro, a autora apresenta uma série de informações promissoras que mostram o empenho para que um protocolo de pesquisa de ciência e teatro seja estabelecido. Nesse caminho, surgem questões bastante relevantes e fundamentais como, por exemplo, de que forma o público se apropria de mensagens nas peças de teatro científico e constroem sentidos a partir do que vivenciam? Ou ainda, como o teatro no Museu da Vida contribui para promover a inclusão social e (re)distribuir capital cultural?

Em quatro atos o livro “Ciência em Cena”, que tem distribuição gratuita e pode ser baixado em http://www.museudavida.fiocruz.br/images/Publicacoes_Educacao/ PDFs/LivroTeatroCienciaemCena.pdf, nos apresenta um rico elenco de pesquisadores em ciência e teatro e uma atmosfera privilegiada para reflexão e produção de conhecimento nesse campo no Brasil. A obra merece aplausos do público por retratar com brilhantismo uma história de sucesso que parece estar apenas começando. O livro é uma obra essencial para conhecer e entender a relação entre teatro e ciência no cenário contemporâneo brasileiro. Se por um lado ainda mantém uma estética acadêmica na escrita e, por isso, pareça privilegiar o leitor especializado, por outro lado, dedica-se a atingir um público amplo. Tal dedicação é extremamente pertinente para manter acesos os holofotes da ciência e da arte, sobretudo em tempos obscuros para a produção de conhecimento no país [Boggio, 2019].

Referências

Boggio, P. S. (2019). ‘Science and education are essential to Brazil’s well-being’. Nature Human Behaviour 3 (7), pp. 648–649. https://doi.org/10.1038/s41562-019-0646-y.

Lyon, J. K. (2014). Bertolt Brecht in America. Princeton Legacy Library 657. Princeton, NJ, U.S.A.: Princeton University Press.

Malina, R. F. (2016). ‘Art-science: an annotated bibliography’. Art Journal 75 (3), pp. 64–69. https://doi.org/10.1080/00043249.2016.1234202.

Miller, A. I. (2014). Colliding worlds: how cutting-edge science is redefining contemporary art. New York, NY, U.S.A.: WW Norton & Company.

Root-Bernstein, B., Siler, T., Brown, A. e Snelson, K. (2011). ‘ArtScience: integrative collaboration to create a sustainable future’. Leonardo 44 (3), pp. 192–192. https://doi.org/10.1162/leon_e_00161.

Autor

João Silveira é artecientista, coreógrafo, graduado em farmácia e mestre e doutor em Educação, Gestão e Difusão de Biociências pela UFRJ. Foi fellow na universidade de Harvard e, atualmente, é pesquisador colaborador da Universidade do Texas em Dallas e pesquisador de pós-doutorado da Fiocruz (CienciArte — LITEB). João pesquisa a relação entre arte, ciência, tecnologia e educação. E-mail: joaoarteciencia@gmail.com.

Como citar

Silveira, J. (2019). ‘Ciência e teatro em quatro atos’. JCOM – América Latina 02 (02), R02. https://doi.org/10.22323/3.02021002.