1 Introdução

As universidades têm sido objeto de pesquisas em diversos aspectos como econômico [Di Nauta et al., 2015], ensino [Schwartzman, 2004] e pesquisa [Nelson et al., 2015]. Diante das irreversíveis transformações globais, o papel, a importância e o impacto das universidades públicas na sociedade vêm sendo cada vez mais questionados. Estudos mais recentes têm ampliado essa discussão ao evidenciar que as universidades passaram a assumir também uma “terceira missão”, relacionada ao engajamento social, à inovação e ao desenvolvimento regional [Compagnucci & Spigarelli, 2020; Etzkowitz & Zhou, 2018]. Nesse contexto, as instituições de ensino superior são compreendidas como atores centrais na articulação entre ciência, tecnologia e sociedade.

No Brasil, as universidades são instituições de ensino superior (IES), de pesquisa e extensão, nas quais diversas ações com a comunidade buscam promover o desenvolvimento regional em benefício de ambas as partes [Peer & Penker, 2014]. Di Nauta et al. [2015] defendem um possível papel da universidade como coordenadora ou gestora na dinâmica da sociedade do conhecimento, uma vez que representa, entre outros fatores, uma solução acessível para os conflitos entre público e privado e um filtro entre diferentes perspectivas e modelos locais. Chaui [2003] defende, entre outras mudanças na universidade pública, o posicionamento contra a exclusão social, o compromisso com a mudança no ensino fundamental e médio e a reavaliação da pesquisa, orientando-a pela ideia de cidadania e relevância social. No entanto, a universidade também enfrenta desafios como cortes de investimentos, burocratização de atividades e falta de recursos humanos, contribuindo para sua crise institucional [Panizzi, 2006]. Autores recentes reforçam que essas tensões se intensificaram nos últimos anos, especialmente diante de processos de internacionalização, avaliação por rankings e pressões por produtividade científica, o que impacta diretamente a percepção social sobre a universidade [Hazelkorn, 2015; Marginson, 2024].

A expansão do ensino superior brasileiro se deve em parte ao crescimento do ensino privado. O ensino superior brasileiro dobrou de tamanho na década de 1990, mas isso não teve um impacto direto na sociedade e na economia do país [Schwartzman, 2004]. Segundo Schwartzman [2004], no Brasil o bem público é propriedade do Estado, enquanto o privado pode ser instituições com ou sem fins lucrativos, beneficentes, religiosas, de base comunitária e outras. Mais recentemente, estudos têm retomado o debate sobre o ensino superior como bem público, destacando sua importância para a coesão social, o desenvolvimento democrático e a redução das desigualdades [Ilieva-Trichkova et al., 2024; Marginson, 2024].

Nessa perspectiva, o engajamento público (public engagement) compreende um conjunto de interações bidirecionais entre universidades e sociedade, nas quais diferentes públicos participam do diálogo sobre ciência, tecnologia e questões de interesse coletivo. Diferentemente de modelos tradicionais de divulgação centrados apenas na transmissão de informações, o engajamento público pressupõe processos participativos, nos quais a sociedade também contribui para a construção e circulação do conhecimento [Entradas & Bauer, 2016; Bucchi & Trench, 2021]. Complementarmente, o conceito de entendimento público da ciência refere-se ao conjunto de conhecimentos, percepções e interpretações que diferentes grupos sociais desenvolvem sobre a ciência, suas instituições e seus impactos na sociedade. Embora esse entendimento envolva aspectos cognitivos, ele também é influenciado por fatores culturais, experiências individuais e níveis de confiança nas instituições científicas [Bonney et al., 2015; Besley et al., 2019]. Nesse contexto, compreender como a população percebe as universidades públicas constitui um elemento importante para o fortalecimento da comunicação científica e para o aprimoramento das estratégias de aproximação entre universidade e sociedade.

O engajamento público nas IES pode variar entre as áreas científicas [Entradas & Bauer, 2016]. Enquanto as Ciências da Natureza mobilizam mais esforços para o engajamento público, principalmente com atividades educacionais, outras áreas, como as Ciências Sociais, promovem mais ações cívicas. Independentemente da área, investimentos e formação de equipes qualificadas são fundamentais. Consequentemente, o entendimento público contribui para o bem-estar social e influencia a tomada de decisão em questões relacionadas à ciência [Bonney et al., 2015]. Estudos recentes indicam que esse engajamento ocorre também em ambientes digitais, ampliando o alcance da comunicação científica, mas introduzindo desafios relacionados à desinformação e à confiança pública na ciência [Bucchi & Trench, 2021; Besley et al., 2021].

1.1 Percepção sobre Instituições de Ensino Superior (IES)

A literatura sobre percepção de Instituições de Ensino Superior (IES) tem investigado principalmente a imagem institucional, a reputação universitária e a qualidade percebida pelos diferentes públicos. É crescente o número de investigações que buscam compreender a imagem e a reputação das universidades [Aghaz et al., 2015; Curtis et al., 2009].

O termo imagem está relacionado com a percepção que diferentes indivíduos têm da universidade, incluindo aspectos simbólicos e institucionais [Brown, 2006]. O entendimento dessas percepções contribui para uma avaliação geral das instituições e para a elaboração de estratégias de comunicação científica mais eficazes [Fisher et al., 2013]. Estudos recentes indicam que essa percepção está cada vez mais associada à presença digital, comunicação institucional e visibilidade em rankings internacionais [Foroudi et al., 2019; Göçen et al., 2024], sendo um construto multidimensional influenciado por diferentes públicos [Fernández-Gubieda & Gutiérrez-García, 2025].

Diversos trabalhos mostram que a pesquisa sobre imagem institucional é frequentemente direcionada a grupos específicos, enquanto a categoria de moradores da comunidade local permanece pouco investigada [Lafuente-Ruiz-de-Sabando et al., 2018]. Estudos recentes reforçam a necessidade de compreender como as experiências e percepções de diferentes grupos sociais contribuem para a construção da imagem e da reputação das universidades [Amado Mateus et al., 2024; Fernández-Gubieda & Gutiérrez-García, 2025; Mendoza-Villafaina & López-Mosquera, 2024].

Resultados recentes indicam que fatores como experiência educacional, percepção de qualidade e expectativas profissionais influenciam a construção da imagem institucional [Melean Romero et al., 2024; Seow & Hussain, 2024]. Em relação à percepção da qualidade do ensino, estudos apontam que, embora os alunos avaliem positivamente os métodos de ensino, persistem dúvidas quanto à qualidade da formação recebida [Dicker et al., 2018]. A imagem da universidade, portanto, apresenta caráter multidimensional, sendo influenciada por fatores institucionais e sociais [Aghaz et al., 2015].

No Brasil, dados da pesquisa Percepção Pública de Ciência e Tecnologia [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019] indicam que há interesse pela ciência, mas baixa busca ativa por informação. Embora cientistas sejam considerados fontes confiáveis, poucos entrevistados conseguem identificar instituições de pesquisa ou cientistas brasileiros. Dados mais recentes [Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2024] mostram que a busca por informação ocorre majoritariamente em ambientes digitais, onde há também maior exposição à desinformação.

Apesar do avanço das pesquisas sobre imagem institucional, reputação universitária e percepção pública das instituições de ensino superior, observa-se que a maior parte desses estudos concentra-se em públicos diretamente vinculados às universidades, como estudantes, docentes, egressos ou gestores institucionais. Ainda são escassas as investigações que analisam como diferentes segmentos da comunidade local percebem as universidades públicas, especialmente em municípios cuja dinâmica social, econômica e científica é fortemente influenciada por essas instituições. Compreender essas percepções pode contribuir para o fortalecimento das estratégias de comunicação científica, para a aproximação entre universidade e sociedade e para uma melhor compreensão do papel social desempenhado pelas universidades públicas. Nesse contexto, o presente estudo busca preencher parte dessa lacuna ao investigar a percepção de diferentes grupos de moradores sobre as universidades públicas de São Carlos (SP).

1.2 O contexto de São Carlos (SP)

São Carlos está localizada no interior do Estado de São Paulo, Brasil, com uma população estimada de 255 mil habitantes em estimativas recentes [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023]. A cidade se destaca pela presença de importantes IES públicas. Essas instituições mantêm posição de destaque em rankings nacionais e internacionais e ampliaram sua atuação em pesquisa, inovação e extensão, consolidando o município como polo científico e tecnológico [QS Quacquarelli Symonds, 2023; Times Higher Education, 2023].

O ingresso nessas instituições ocorre por meio do Exame Nacional do Ensino Médio ou processos seletivos específicos. As universidades públicas são financiadas por recursos públicos, permitindo acesso gratuito à graduação e à pós-graduação, além de programas de assistência estudantil que visam garantir permanência e equidade [Brasil, 2012]. Essas instituições conferem à cidade reconhecimento nacional e internacional e contribuem para sua consolidação como importante polo científico e tecnológico.

Diante desse contexto, este estudo tem como objetivo analisar a percepção de diferentes segmentos da comunidade local sobre as universidades públicas da cidade, comparando moradores da comunidade local sem vínculo com essas instituições e estudantes do ensino médio de escolas públicas e privadas. Considerando as transformações ocorridas nas relações entre ciência, universidade e sociedade e os desafios contemporâneos relacionados à comunicação e à confiança na ciência, torna-se relevante revisitar e compreender como diferentes grupos percebiam o papel dessas instituições no contexto investigado. Assim, as questões que orientam esta pesquisa são:

  1. A comunidade percebe os impactos das universidades públicas na cidade e região?
  2. Essa percepção difere entre comunidade local e estudantes?
  3. Há diferenças entre alunos de escolas públicas e privadas quanto à percepção da universidade pública?

2 Metodologia

2.1 Participantes

A pesquisa foi realizada com moradores de São Carlos (SP), organizados em três grupos: moradores da comunidade local sem vínculo com universidades públicas, estudantes do ensino médio de escolas públicas e estudantes do ensino médio de escolas privadas. Essa estratégia permitiu comparar a percepção de diferentes segmentos da população, considerando distintos contextos educacionais e níveis de proximidade com o ambiente universitário.

Foram incluídos apenas participantes residentes no município há pelo menos cinco anos e que não possuíam vínculo acadêmico ou profissional com universidades públicas, buscando assegurar familiaridade com o contexto local e com a atuação dessas instituições.

2.2 Caracterização da amostra

Foram considerados válidos 454 questionários, sendo 75 (16,5%) respondidos por moradores da comunidade local, 260 (57,3%) por estudantes de escolas públicas e 119 (26,2%) por estudantes de escolas privadas. Os participantes residentes na comunidade local possuíam pelo menos cinco anos de residência no município e não apresentavam vínculo acadêmico ou profissional com universidades públicas. A utilização de diferentes grupos sociais permite identificar variações relevantes nas percepções sobre instituições científicas [Organisation for Economic Co-operation and Development, 2021; Vogt et al., 2003].

2.3 Instrumento

Para a investigação da percepção sobre as IES públicas, foi utilizado um questionário estruturado com escala Likert de cinco pontos, variando de discordo totalmente (1) a concordo totalmente (5).

A elaboração do instrumento foi baseada em uma pesquisa diagnóstica prévia [Parra et al., 2015], realizada com 196 participantes, na qual foi proposta a afirmação aberta “Para mim, universidade pública é…”, acompanhada de questões sociodemográficas.

A análise das respostas permitiu identificar categorias que orientaram a construção do questionário final: benefícios para a cidade, espaço de aprendizagem, direito de todos, comparação com outras IES e visão idealizada.

Com base nessas categorias, foram elaboradas 40 afirmações, organizadas de forma não sequencial. Algumas afirmações apresentaram sentido negativo e foram recodificadas para análise.

O instrumento foi submetido à avaliação de quatro especialistas da área de educação e ensino de ciências, que analisaram a clareza, redundância e pertinência dos itens, contribuindo para sua validação de conteúdo.

As sugestões dos especialistas foram incorporadas à versão final do instrumento, contribuindo para o aprimoramento da clareza dos itens, da adequação da linguagem e da representatividade das dimensões investigadas.

2.4 Coleta de dados

A coleta de dados foi realizada durante o ano de 2015. A coleta com a população geral durou aproximadamente 30 dias, em diferentes pontos da cidade caracterizados por grande circulação de pessoas, como regiões centrais, parques e espaços públicos, contemplando diferentes bairros e distintos períodos do dia (matutino e vespertino). Os participantes foram abordados diretamente pelos pesquisadores, sendo informados sobre os objetivos da pesquisa e convidados a responder voluntariamente ao questionário.

Para o público estudantil, os questionários foram aplicados em todas as séries do ensino médio de escolas públicas e privadas distribuídas em diferentes regiões do município, buscando contemplar distintos contextos socioeconômicos. Participaram da pesquisa 12 escolas de ensino médio, selecionadas de forma a representar diferentes bairros da cidade e respeitar, tanto quanto possível, a proporção de estudantes matriculados nas redes pública e privada.

Os questionários foram aplicados em sala de aula. O tempo médio de resposta foi de aproximadamente 15 minutos. Os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa e aceitaram participar voluntariamente. Não foram coletadas informações que permitissem a identificação individual dos participantes, e as respostas foram tratadas de forma anônima e confidencial.

Além das questões do instrumento, foram coletadas informações sociodemográficas, como idade, escolaridade, ocupação, tempo de residência na cidade e ausência de vínculo com universidades públicas.

2.5 Análise dos dados

Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e inferencial utilizando os softwares SPSS 17.0 e Microsoft Excel 2013. Inicialmente foram calculadas médias e erros-padrão para cada item do questionário. Em seguida, as diferenças entre os três grupos investigados foram analisadas por meio de análise de variância (ANOVA de um fator), seguida do teste post hoc de Tukey para identificação das diferenças entre pares de grupos, adotando-se nível de significância de 5% (p < 0,05). Os itens negativos foram previamente recodificados para garantir consistência na interpretação dos resultados. Os dados são apresentados como média ± erro padrão.

2.6 Limitação da amostra

Embora os grupos apresentem tamanhos distintos, optou-se por manter todos os participantes elegíveis para ampliar a representação dos diferentes segmentos investigados. A menor participação dos moradores da comunidade local decorreu da própria estratégia de coleta em espaços públicos, na qual a adesão dependia da disponibilidade voluntária dos participantes, diferentemente da aplicação realizada nas escolas durante o período de aula. Essa característica foi considerada na interpretação dos resultados e constitui uma limitação do estudo. Trata-se de uma amostra não probabilística, por conveniência, composta por participantes que atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos para o estudo.

Por se tratar de uma amostra não probabilística, obtida por conveniência, não é possível assumir representatividade estatística da população do município nem estimar formalmente margem de erro ou intervalo de confiança para generalização dos resultados. Dessa forma, os achados devem ser interpretados como representativos exclusivamente dos participantes investigados, embora forneçam evidências relevantes sobre a percepção de diferentes segmentos da comunidade local.

3 Resultados

3.1 Comparação entre grupos

De modo geral, observou-se uma percepção predominantemente positiva das universidades públicas entre todos os grupos investigados. Entretanto, diferenças significativas foram identificadas entre moradores da comunidade local, estudantes de escolas públicas e estudantes de escolas privadas, especialmente nas categorias benefícios para a cidade, direito social e visão idealizada. A comunidade local apresentou maior concordância na comparação entre universidades públicas e outras IES (Tabela 1), destacando a qualidade do ensino e sua valorização no mercado de trabalho (M = 4,02 e 4,30, respectivamente).

Tabela 1: Percepção pública sobre a comparação entre universidades públicas e outras instituições de ensino superior. Nota: M: média; EP: erro padrão; Rv: item invertido; F corresponde à estatística F da análise de variância (ANOVA) e p ao valor de significância estatística, sendo consideradas estatisticamente significativas as diferenças com p < 0,05. Escala: 1 = discordo totalmente; 2 = discordo parcialmente; 3 = nem concordo nem discordo; 4 = concordo parcialmente; 5 = concordo totalmente.

Afirmações

Escola pública (M ± EP)

Comunidade local (M ± EP)

Escola privada (M ± EP)

F
p

É melhor do que universidades privadas

3,48 ± 0,065

3,73 ± 0,129

3,52 ± 0,096

1,812 0,165

É onde se aprende com melhor qualidade

3,59 ± 0,078

4,02 ± 0,119

3,31 ± 0,100

11,919 0,000

É a mais difícil de entrar e concluir

3,31 ± 0,083

3,75 ± 0,131

3,65 ± 0,110

5,811 0,003

É inferior às universidades privadas (Rv)

3,73 ± 0,070

3,95 ± 0,145

4,17 ± 0,089

5,025 0,007

É mais valorizada no mercado de trabalho

3,91 ± 0,081

4,30 ± 0,102

3,96 ± 0,093

5,076 0,007

Não é igual às universidades privadas (Rv)

2,81 ± 0,065

2,73 ± 0,159

2,38 ± 0,103

4,607 0,010

Entre os estudantes, observou-se que os alunos de escolas privadas tenderam a atribuir maior valor às universidades públicas em relação à qualidade do ensino e à dificuldade de ingresso, enquanto os estudantes de escolas públicas apresentaram respostas mais moderadas. Esses resultados são consistentes com estudos que indicam níveis relativamente elevados de confiança em instituições científicas [Wellcome, 2021]. Ao comparar estudantes e comunidade local, observaram-se resultados semelhantes na categoria espaço de aprendizagem (Tabela 2), com todos os grupos reconhecendo a universidade pública como um espaço de aprendizagem.

Tabela 2: Percepção pública da universidade pública como espaço de aprendizagem. Nota: M: média; EP: erro padrão; Rv: item invertido; F corresponde à estatística F da análise de variância (ANOVA) e p ao valor de significância estatística, sendo consideradas estatisticamente significativas as diferenças com p < 0,05. Escala: 1 = discordo totalmente; 2 = discordo parcialmente; 3 = nem concordo nem discordo; 4 = concordo parcialmente; 5 = concordo totalmente.

Afirmações

Escola pública (M ± EP)

Comunidade local (M ± EP)

Escola privada (M ± EP)

F
p

É um espaço utilizado para aprender

4,71 ± 0,041

4,81 ± 0,060

4,64 ± 0,061

1,944 0,144

É um local onde se adquire mais conhecimento

4,67 ± 0,044

4,72 ± 0,071

4,60 ± 0,073

0,744 0,476

É o melhor espaço para formação profissional

4,26 ± 0,056

4,36 ± 0,095

3,66 ± 0,087

21,972 0,000

Não é o único espaço de formação (Rv)

2,36 ± 0,076

2,65 ± 0,164

1,87 ± 0,092

11,107 0,000

Não é necessariamente o melhor lugar para estudar (Rv)

3,81 ± 0,077

3,69 ± 0,153

3,25 ± 0,120

7,580 0,001

É o melhor lugar para adquirir conhecimento intelectual

4,01 ± 0,056

4,27 ± 0,108

3,52 ± 0,092

18,581 0,000

Não é o melhor lugar para adquirir conhecimento intelectual (Rv)

4,12 ± 0,074

4,36 ± 0,114

4,06 ± 0,091

2,374 0,094

A concordância entre os grupos quanto ao papel da universidade como espaço de produção de conhecimento também tem sido observada em estudos recentes [Marginson, 2024]. Entre os estudantes, observou-se maior valorização da universidade como espaço de formação profissional entre os alunos das escolas públicas, enquanto os estudantes das escolas privadas apresentaram menor concordância nesse aspecto. O principal ponto de divergência entre os grupos foi observado na categoria direito de todos (Tabela 3), especialmente no item relacionado à associação da universidade pública a um direito restrito a determinados grupos sociais.

Tabela 3: Percepção pública da universidade pública como direito de todos. Nota: M: média; EP: erro padrão; Rv: item invertido; F corresponde à estatística F da análise de variância (ANOVA) e p ao valor de significância estatística, sendo consideradas estatisticamente significativas as diferenças com p < 0,05. Escala: 1 = discordo totalmente; 2 = discordo parcialmente; 3 = nem concordo nem discordo; 4 = concordo parcialmente; 5 = concordo totalmente.

Afirmações

Escola pública (M ± EP)

Comunidade local (M ± EP)

Escola privada (M ± EP)

F
p

É direito de todo cidadão, independentemente da renda

4,50 ± 0,057

4,74 ± 0,067

4,60 ± 0,081

2,970 0,052

É direito apenas de pessoas de baixa renda

1,84 ± 0,076

2,20 ± 0,155

1,28 ± 0,065

18,111 0,000

É uma oportunidade para quem não pode pagar

4,58 ± 0,051

4,58 ± 0,100

4,28 ± 0,097

4,706 0,009

É direito de todos, embora poucos tenham acesso

4,46 ± 0,056

4,59 ± 0,100

4,61 ± 0,076

1,482 0,228

É para quem pode pagar o curso

1,74 ± 0,068

1,78 ± 0,124

1,54 ± 0,091

1,766 0,172

É uma oportunidade para os ricos

1,79 ± 0,074

2,31 ± 0,153

2,27 ± 0,131

8,208 0,000

É inacessível, pois não tenho condições de pagar (Rv)

4,25 ± 0,074

3,79 ± 0,159

4,50 ± 0,087

9,567 0,000

Embora ambos os grupos tenham reconhecido a universidade pública como um direito social, estudantes de escolas públicas e privadas diferiram quanto à percepção de sua acessibilidade. Diferenças semelhantes têm sido apontadas na literatura, indicando a coexistência de visões meritocráticas e de direito social [Ilieva-Trichkova et al., 2024]. Na categoria benefícios para a cidade (Tabela 4), a comunidade local apresentou maior concordância quanto ao papel das universidades no desenvolvimento científico, cultural e econômico do município.

Tabela 4: Percepção pública dos benefícios das universidades públicas para a cidade. Nota: M: média; EP: erro padrão; Rv: item invertido; F corresponde à estatística F da análise de variância (ANOVA) e p ao valor de significância estatística, sendo consideradas estatisticamente significativas as diferenças com p < 0,05. Escala: 1 = discordo totalmente; 2 = discordo parcialmente; 3 = nem concordo nem discordo; 4 = concordo parcialmente; 5 = concordo totalmente.

Afirmações

Escola pública (M ± EP)

Comunidade local (M ± EP)

Escola privada (M ± EP)

F
p

Contribui para o avanço da ciência e tecnologia

4,33 ± 0,053

4,64 ± 0,074

4,58 ± 0,068

7,245 0,001

É o local onde a pesquisa científica se desenvolve

3,94 ± 0,064

4,54 ± 0,075

4,14 ± 0,081

15,325 0,000

Não desenvolve coisas importantes para a sociedade (Rv)

4,41 ± 0,066

4,45 ± 0,120

4,78 ± 0,056

5,986 0,003

Não desenvolve coisas úteis para a sociedade (Rv)

4,57 ± 0,062

4,61 ± 0,107

4,79 ± 0,054

2,536 0,080

É essencial para o desenvolvimento cultural da cidade

3,83 ± 0,064

4,43 ± 0,099

3,77 ± 0,090

15,104 0,000

Beneficia a cidade com avanços tecnológicos

4,10 ± 0,063

4,55 ± 0,086

4,33 ± 0,080

8,661 0,000

Contribui com projetos educacionais

4,04 ± 0,061

4,55 ± 0,077

4,42 ± 0,063

15,919 0,000

Contribui com projetos sociais

3,92 ± 0,062

4,40 ± 0,101

4,25 ± 0,077

10,700 0,000

Contribui para o comércio da cidade

3,57 ± 0,072

4,28 ± 0,109

3,83 ± 0,089

15,357 0,000

Entre os estudantes, os alunos das escolas privadas atribuíram maior concordância aos itens relacionados à contribuição das universidades para ciência, tecnologia e projetos sociais. Esses resultados corroboram estudos que destacam o papel das universidades no desenvolvimento regional [Compagnucci & Spigarelli, 2020]. Na categoria visão idealizada (Tabela 5), a população apresentou maior concordância com afirmações relacionadas à universidade como espaço de realização pessoal e profissional, enquanto os estudantes apresentaram respostas mais neutras.

Tabela 5: Percepção pública: visão idealizada sobre universidades públicas. Nota: M: média; EP: erro padrão; Rv: item invertido; F corresponde à estatística F da análise de variância (ANOVA) e p ao valor de significância estatística, sendo consideradas estatisticamente significativas as diferenças com p < 0,05. Escala: 1 = discordo totalmente; 2 = discordo parcialmente; 3 = nem concordo nem discordo; 4 = concordo parcialmente; 5 = concordo totalmente.

Afirmações

Escola pública (M ± EP)

Comunidade local (M ± EP)

Escola privada (M ± EP)

F
p

Não afeta minha vida (Rv)

3,41 ± 0,100

3,12 ± 0,181

4,16 ± 0,117

14,294 0,000

É inacessível porque não tenho inteligência (Rv)

4,19 ± 0,083

4,17 ± 0,136

4,27 ± 0,107

0,203 0,816

É sinônimo de sucesso na vida

4,28 ± 0,059

4,32 ± 0,101

3,24 ± 0,107

48,690 0,000

Não afeta a vida das pessoas (Rv)

3,88 ± 0,088

3,77 ± 0,175

4,37 ± 0,098

6,549 0,002

É o caminho para o emprego dos sonhos

4,16 ± 0,072

4,24 ± 0,119

3,58 ± 0,106

12,964 0,000

É onde se tem oportunidade de vencer na vida

4,31 ± 0,058

4,46 ± 0,096

3,68 ± 0,093

24,308 0,000

É a realização de um sonho

4,09 ± 0,070

4,17 ± 0,128

3,97 ± 0,105

0,889 0,412

Não significa nada para mim (Rv)

4,61 ± 0,060

4,37 ± 0,132

4,81 ± 0,058

5,631 0,004

É onde estão grandes cientistas

3,52 ± 0,069

4,25 ± 0,094

3,48 ± 0,096

19,965 0,000

É a universidade onde todos querem estudar

3,50 ± 0,075

4,38 ± 0,090

3,35 ± 0,108

27,439 0,000

Não é algo que me interessa (Rv)

4,47 ± 0,070

4,12 ± 0,149

4,67 ± 0,078

6,593 0,002

Entre os estudantes, observou-se que os alunos das escolas públicas associaram mais fortemente a universidade pública ao sucesso profissional e à mobilidade social, enquanto os alunos das escolas privadas apresentaram respostas mais moderadas. A presença dessa visão idealizada também tem sido discutida na literatura, sendo associada à ideia de mobilidade social [Marginson, 2024].

3.2 Discussão

Em relação aos benefícios científicos e tecnológicos, a comunidade local apresentou concordância em todos os itens, enquanto os demais grupos, embora tenham reconhecido a importância da universidade para o desenvolvimento da cidade, não conseguiram avaliar sua contribuição em aspectos específicos, como desenvolvimento cultural e econômico. Esse resultado reforça o papel das universidades públicas na dinâmica social e econômica local, conforme destacado por Di Nauta et al. [2015], e indica que a percepção desse impacto pode estar relacionada à visibilidade das atividades científicas e à comunicação institucional [Bucchi & Trench, 2021]. Além disso, o desenvolvimento promovido pelas instituições de ensino superior depende não apenas de sua atuação, mas também da interação com outros atores sociais, como empresas, gestores públicos e a própria comunidade [Peer & Penker, 2014].

A dificuldade observada entre parte dos participantes em reconhecer esses impactos evidencia a necessidade de ampliar o conhecimento da população sobre as funções da universidade. A distância entre sociedade e universidade pode limitar a compreensão de seu papel social, reforçando a importância de estratégias de comunicação científica mais eficazes. Nesse sentido, a literatura aponta que a construção de uma relação mais próxima entre ciência e sociedade depende da capacidade de comunicação com públicos não especializados [Yuan et al., 2017; Besley et al., 2021].

Os resultados encontrados na categoria espaço de aprendizagem indicaram concordância entre a comunidade local e os alunos de escolas públicas, que avaliaram positivamente a universidade como espaço de formação. Já os alunos de escolas privadas apresentaram menor concordância nesse aspecto. Essas diferenças podem estar associadas ao acesso desigual à informação e às experiências educacionais prévias, que influenciam a forma como diferentes grupos percebem as instituições de ensino superior [Vogt et al., 2003]. Além disso, características estruturais das universidades públicas, como o investimento no corpo acadêmico e o desenvolvimento de atividades de pesquisa, podem contribuir para a construção de uma imagem institucional mais positiva [McCowan, 2004].

A qualidade do ensino também se mostra um fator relevante na construção da percepção das instituições, influenciando diretamente a forma como diferentes públicos as avaliam [Dicker et al., 2018]. Nesse contexto, a necessidade de atualização curricular e de maior integração entre formação acadêmica e demandas contemporâneas torna-se central, especialmente diante das transformações tecnológicas e sociais [Marginson, 2024]. Ao mesmo tempo, estudos recentes indicam que, embora o ensino superior seja reconhecido como um direito, persistem barreiras estruturais que dificultam seu acesso efetivo [Organisation for Economic Co-operation and Development, 2021].

No que se refere ao fator direito de todos, observou-se consenso entre os grupos quanto ao reconhecimento da universidade pública como um direito social. No entanto, essa percepção pareceu coexistir com a ideia de que o acesso dependia do mérito individual, evidenciando a presença de discursos meritocráticos. Essa contradição sugere que, embora os participantes reconhecessem o direito à educação, havia limitações na compreensão das desigualdades que afetam o acesso ao ensino superior. A literatura contemporânea aponta que essa percepção está associada à internalização de discursos meritocráticos que tendem a naturalizar desigualdades educacionais [Ilieva-Trichkova et al., 2024].

Nesse sentido, estudantes, especialmente aqueles em contextos de maior vulnerabilidade, podem acreditar que o ingresso na universidade pública depende exclusivamente de esforço individual, desconsiderando fatores estruturais. Esse tipo de compreensão sugere a necessidade de que a discussão sobre o acesso ao ensino superior seja ampliada desde a educação básica, de modo a problematizar as condições desiguais de partida. A meritocracia, nesse contexto, pode atuar como mecanismo de legitimação das desigualdades educacionais [Silva, 2013].

Em relação à comparação com outras instituições de ensino superior, os resultados indicaram que os grupos não apresentavam clareza quanto às diferenças entre universidades públicas e privadas, embora tenha sido observada uma tendência, especialmente entre estudantes de escolas privadas, de reconhecer a superioridade das instituições públicas. Esse resultado pode estar relacionado a características institucionais das universidades públicas, incluindo maior investimento por estudante e maior envolvimento com atividades de pesquisa [McCowan, 2004; Arbix & Consoni, 2011; Chaui, 2003]. Ao mesmo tempo, estudos indicam que a percepção sobre a qualidade das instituições tem se tornado mais complexa, sendo influenciada por fatores como rankings e visibilidade institucional [Hazelkorn, 2015].

No que se refere à relação entre universidade pública e impacto na vida dos indivíduos, observou-se que os alunos de escolas privadas tenderam a reconhecer esse impacto de forma mais direta, possivelmente devido à maior proximidade com o tema ao longo de sua trajetória escolar. Por outro lado, os demais grupos não estabeleceram essa relação de forma clara, o que pode indicar um distanciamento entre a universidade e a realidade vivenciada por esses sujeitos. Os resultados são compatíveis com estudos que apontam que o contexto escolar pode influenciar a construção de expectativas em relação ao ensino superior [Organisation for Economic Co-operation and Development, 2021].

Também se observou que a comunidade local e os alunos de escolas públicas tenderam a apresentar uma visão idealizada da universidade pública, associando-a à possibilidade de ascensão social. Já os alunos de escolas privadas não apresentaram uma posição clara nesse aspecto. Essa diferença pode estar relacionada às distintas condições socioeconômicas e expectativas de futuro entre os grupos. A literatura aponta que a associação entre ensino superior e mobilidade social permanece presente, embora seus efeitos sejam desiguais entre diferentes grupos sociais [Marginson, 2024].

Um dos principais achados deste estudo foi identificar que, no contexto investigado em 2015, estudantes pertencentes ao mesmo nível de escolaridade e residentes na mesma cidade apresentaram percepções distintas sobre as universidades públicas. Esse resultado sugere que a construção da imagem dessas instituições não depende apenas da escolaridade formal, mas também pode estar relacionada às experiências educacionais, ao contexto escolar e às oportunidades de interação com a universidade. Sob essa perspectiva, estratégias de comunicação científica e de aproximação entre universidade e sociedade podem beneficiar-se de ações direcionadas às especificidades de diferentes públicos, mesmo quando pertencem ao mesmo nível de ensino. Além disso, esses resultados oferecem subsídios para a formulação de políticas educacionais voltadas ao fortalecimento da relação entre a universidade e a educação básica.

De modo geral, os resultados evidenciaram a complexidade da percepção sobre a universidade pública entre os participantes investigados, envolvendo diferentes dimensões e possíveis influências de fatores sociais, culturais e educacionais. Apesar da presença de importantes instituições na cidade, os resultados sugeriram que parte dos participantes não percebia a universidade como um elemento presente em sua realidade cotidiana. A literatura contemporânea reforça que a percepção pública da universidade é multifacetada e depende de múltiplos fatores, incluindo comunicação científica e inserção social [Bucchi & Trench, 2021]. Uma possível interpretação para esses resultados é que desigualdades historicamente presentes na educação básica possam contribuir para esse distanciamento, hipótese que encontra respaldo na literatura [Chaui, 2003; Organisation for Economic Co-operation and Development, 2021].

Por fim, destaca-se como limitação deste estudo o menor número de participantes na categoria moradores da comunidade local, em comparação aos demais grupos. A obtenção de amostras equilibradas entre diferentes grupos pode representar um desafio em pesquisas que envolvem estratégias distintas de recrutamento e contextos de coleta [Creswell & Creswell, 2018]. No presente estudo, apesar de a coleta com a comunidade local ter sido realizada em diferentes pontos da cidade e em diferentes períodos do dia, houve maior dificuldade de recrutamento desse público, uma vez que parte das pessoas abordadas não se mostrou disponível para interromper sua rotina para responder ao questionário. Nas escolas, por outro lado, a aplicação coletiva durante o período de aula possibilitou alcançar um número maior de participantes. Essa diferença deve ser considerada na interpretação e generalização dos resultados.

Outro aspecto central para a interpretação dos resultados refere-se ao período de realização da coleta de dados, ocorrida em 2015. Desde então, o contexto social, político e científico brasileiro passou por transformações relevantes que podem ter repercutido na percepção pública das universidades. Entre 2019 e 2022, durante o governo Bolsonaro, as universidades públicas brasileiras estiveram inseridas em um cenário marcado por medidas de austeridade, cortes e contingenciamentos orçamentários, suspensão de bolsas de fomento e ataques discursivos à pesquisa científica e à comunidade acadêmica [Fiori & Fiori Arantes, 2023; Rocha et al., 2026]. Nesse mesmo período, a pandemia de COVID-19 conferiu maior centralidade à ciência no debate público e evidenciou a atuação das universidades públicas brasileiras na produção de conhecimento e no desenvolvimento de respostas à crise sanitária, além de intensificar iniciativas de interação e cooperação com diferentes segmentos da sociedade [Nunes Gimenez & Machado Bonacelli, 2023]. Pesquisas realizadas durante esse período também apontaram elevada confiança em cientistas e instituições científicas e aumento do interesse público pela ciência, embora em um contexto simultaneamente marcado pela circulação de desinformação, pelo negacionismo científico e pela polarização política [Massarani et al., 2021; Sígolo et al., 2023].

Essas transformações podem ter produzido efeitos distintos, e até mesmo contraditórios, sobre a percepção das universidades públicas. Por um lado, a maior visibilidade de sua atuação durante a pandemia pode ter contribuído para ampliar o reconhecimento de sua relevância científica e social; por outro, os ataques discursivos, as disputas políticas e a circulação de desinformação podem ter repercutido negativamente na confiança e na imagem dessas instituições em determinados segmentos da população. Os dados deste estudo, entretanto, não permitem estabelecer se essas mudanças efetivamente ocorreram, tampouco determinar sua direção ou magnitude. Por se tratar de um estudo transversal realizado em 2015, os resultados devem ser compreendidos como um retrato das percepções existentes naquele contexto histórico e não podem ser automaticamente extrapolados para o cenário atual. Essa distância temporal constitui, portanto, uma limitação do estudo, mas também evidencia a pertinência de novas investigações que retomem questões e grupos semelhantes aos aqui analisados, possibilitando identificar permanências e mudanças na percepção pública das universidades ao longo da última década e compreender como as transformações políticas, sociais e sanitárias ocorridas nesse período repercutiram na relação entre universidade e sociedade.

4 Conclusões

O estudo respondeu às três questões iniciais de pesquisa ao evidenciar que, no contexto investigado em 2015, a comunidade local e os alunos das duas redes de ensino reconheciam a universidade pública como um direito e apresentavam uma visão positiva dessas instituições, embora não identificassem claramente as diferenças entre instituições de ensino superior públicas e privadas. Observou-se também que a comunidade local foi o grupo que reconheceu de forma mais abrangente os benefícios promovidos pelas universidades públicas para a cidade, enquanto os estudantes não percebiam de maneira clara sua contribuição para o desenvolvimento cultural e econômico. Além disso, verificou-se que a comunidade local e os alunos de escolas públicas apresentavam uma visão mais idealizada dessas instituições, enquanto os alunos de escolas privadas tendiam a reconhecer sua superioridade e seu impacto em suas trajetórias.

A análise de diferentes grupos mostrou-se relevante ao evidenciar que, mesmo entre estudantes do mesmo nível de escolaridade, existiam percepções distintas sobre a universidade pública. Esse resultado representa uma das principais contribuições deste estudo, ao indicar que fatores relacionados ao contexto educacional podem estar associados à construção da imagem das universidades públicas. Essa constatação amplia a compreensão sobre os processos de percepção pública das instituições de ensino superior e reforça a importância de estratégias de comunicação científica que considerem as características e necessidades de diferentes segmentos da sociedade.

Os resultados também apontam para a importância de fortalecer estratégias de aproximação entre universidade e sociedade, favorecendo uma compreensão mais ampla e crítica dessas instituições. Ações de comunicação científica e de interação com diferentes públicos podem contribuir para tornar mais conhecidas as funções de ensino, pesquisa e extensão e mais visíveis as contribuições sociais, científicas, culturais e econômicas das universidades públicas. Ao evidenciar diferenças de percepção entre distintos segmentos da comunidade, o estudo oferece subsídios para o planejamento de ações institucionais de comunicação e relacionamento com a sociedade.

Entretanto, a distância temporal entre a coleta dos dados e o momento atual deve ser considerada na interpretação desses achados. As transformações sociais, políticas e sanitárias ocorridas desde 2015 — incluindo períodos de ataques e questionamentos dirigidos às universidades públicas e à comunidade científica, bem como a pandemia de COVID-19 e a maior visibilidade adquirida pela ciência e pelas universidades durante a crise sanitária — podem ter repercutido na maneira como essas instituições são percebidas pela sociedade. Dessa forma, os resultados deste estudo devem ser compreendidos como um retrato das percepções existentes no contexto investigado em 2015, não sendo possível inferir, a partir desses dados, como essas percepções se modificaram ao longo da última década.

Como perspectiva futura, sugere-se a realização de novas investigações que retomem questões e grupos semelhantes aos analisados neste estudo, possibilitando comparar as percepções atuais com aquelas identificadas em 2015 e investigar possíveis permanências e mudanças ao longo do tempo. A ampliação das pesquisas para outros grupos sociais e contextos também poderá aprofundar a compreensão das relações entre percepção pública, condições socioeconômicas, contexto educacional e acesso ao ensino superior.

Por fim, estudos sobre a percepção pública podem contribuir para o desenvolvimento das instituições de ensino superior ao possibilitar a compreensão de sua imagem social e de sua relação com diferentes públicos, oferecendo subsídios para estratégias de comunicação e aproximação com a sociedade e para a valorização da universidade pública enquanto bem coletivo.

Agradecimentos

Os autores agradecem aos moradores de São Carlos que participaram do estudo.

Declaração de interesses conflitantes. Os autores declaram não haver conflito de interesses em relação à pesquisa, autoria e publicação deste artigo.

Financiamento. O trabalho teve apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) [processo nº 2017 / 10118-0, 2014 / 02522-7, 2018 / 20145-7] e Programa Aprender com a Comunidade (PRG-USP).

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Sobre o autores

Daniel M. Silva é licenciado em Química e doutor em Ciências. É pesquisador do Laboratório de Investigações no Ensino de Ciências Naturais do Instituto de Química de São Carlos (IQSC/USP), Brasil. Atua nas áreas de investigação científica e popularização da ciência.

E-mail: daniel.matheus.silva@usp.br

Franciani Cássia Sentanin é Professora Visitante da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Foi Professora Visitante da Universidade Federal do ABC (UFABC) e Professora Substituta da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É bacharel e licenciada em Química, mestre e doutora em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade de São Paulo (USP), onde também realizou três estágios de pós-doutorado. Desenvolve pesquisas nas áreas de comunicação pública da ciência, divulgação científica, percepção pública da ciência, Ensino de Química, Teoria da Autodeterminação e formação de professores. É autora de diversos artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais.

E-mail: fcsentanin@uesc.br

Kenia N. Parra é bacharel em Química, mestre e doutora em Ciências. É pesquisadora do Laboratório de Ensino e Aprendizagem em Química do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos, Brasil. Atua nas áreas de popularização da ciência, museus de ciências e motivação para aprender.

E-mail: keniaparra8@gmail.com

Ana Cláudia Kasseboehmer possui graduação em Bacharelado (2004) e Licenciatura em Química (2006), Mestrado em Química (2006) e Doutorado em Ciências pela Universidade Federal de São Carlos (2011). Atualmente é docente Associada-2 do Instituto de Química de São Carlos IQSC/USP e colaboradora da Rede Latino-Americana de Pesquisa em Educação Química, RELAPEQ, Brasil. Coordenou o Subprojeto de Química do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID/CAPES) entre 2014 e 2016. Foi tutora do Programa de Educação Tutorial (PET/MEC) de 2016 a 2019. Atuou como vice-presidente da Comissão de Graduação do IQSC no mandato 2018 - 2020. Atua como vice-presidente da Comissão de Cultura e Extensão do IQSC no mandato 2024 - 2026. Coordena o grupo de pesquisa Laboratório de Investigações em Ensino de Ciências Naturais (LINECIN) e o grupo de extensão EducAção iniciativa que tem o objetivo de utilizar a divulgação científica como atividade de integração e de formação de professores da educação básica. É membra do comitê gestor responsável pela sub-coordenação de Comunicação e Divulgação Científica do INCT SinBiAm e coordenadora das ações de divulgação científica de projeto temático da Fapesp. Suas áreas de pesquisa são Divulgação Científica, Abordagem investigativa no Ensino de Ciências e Formação inicial e continuada de professores.

E-mail: claudiaka@iqsc.usp.br