A formação de mediadores no Museu da Vida: múltiplas vivências

Resumen: 

O artigo aborda a experiência do Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro, Brasil), em seus múltiplos programas de formação de jovens de ensino médio e superior. No texto são descritos os diferentes programas, o perfil dos participantes, as práticas formativas utilizadas nas diferentes frentes de formação deste museu. Os autores abordam também os principais desafios enfrentados e apontam perspectivas que podem auxiliar na reflexão de educadores e demais profissionais de museus e centros de ciência.

Fecha de recepción: 
11 de marzo de 2020
Fecha de aceptación: 
24 de abril de 2020
Fecha de publicación: 
6 de noviembre de 2020

1 Introdução

O Museu da Vida (MV), inaugurado em 1999, é um departamento da Casa de Oswaldo Cruz (COC) da centenária Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a mais renomada instituição de pesquisa em saúde pública da América Latina, vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil. Tem como visão ser reconhecido como principal articulador nas ações de divulgação da ciência entre a Fiocruz e a população brasileira e, internacionalmente, como instituição museológica de referência nas áreas da ciência, tecnologia e saúde. Seus temas centrais são a vida como conhecimento, a saúde como qualidade de vida e a intervenção do homem sobre a vida.

Com todas as suas atividades oferecidas gratuitamente ao público, o MV localiza-se na cidade do Rio de Janeiro, no campus sede da Fiocruz, em Manguinhos, bairro carioca que apresenta um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade.

O MV desde sua origem afirma seu perfil de instituição formadora e colaboradora da construção da justiça social no Brasil. Portanto, enseja ações de formação de jovens de ensinos médio e superior em múltiplas frentes. Por isso, no presente artigo, busca-se apresentar a experiência de formação de mediadores nas diferentes iniciativas de atendimento ao público do MV, bem como o desenvolvimento de atividades formativas que visam fazer pensar criticamente sobre o papel social, educativo e político dos museus de ciências e, de forma geral, dos ambientes não formais de educação.

Entre essas frentes estão tanto o “Programa de Iniciação à Divulgação e Popularização da Ciência” (PROPOP) quanto o “Programa de Produção Cultural” (Pró-Cultural), principais programas voltados, respectivamente, para a formação universitária e para o ensino médio. Pode-se citar ainda as Ações Itinerantes e Ações Territorializadas do MV, programas de formação mista que recebem alunos de ambos os grupos.

Recentemente, em 2018, o MV alterou sua estrutura e organizou o seu Serviço de Educação, que passou a ter três subestruturas, quais sejam o Núcleo de Desenvolvimento de Público, a Seção de Ações Educativas para o Público e a Seção de Formação. Destaca-se esta última, que deve de maneira específica subsidiar conceitualmente ações de formação de todos os setores do MV e colaborar com os seus integrantes. A Seção de Formação também promove ações importantes, tais como cursos para formação de mediadores, encontros e oficinas temáticas para educadores e professores em formação e o Seminário de Práticas Educativas.

Outro serviço criado em 2018, que juntamente com o Serviço de Educação do MV concentra cerca de dois terços ou mais dos processos e práticas formativas do museu, é o Serviço de Itinerância. Desde a sua inauguração, o MV realiza ações fora dos seus muros. Rapidamente se percebeu a importância de se alcançar novos públicos a partir do investimento em ações de itinerância, chegando a populações que vivenciam processos históricos de exclusão. Abraçar este desafio foi uma decisão estratégica do MV, que atualmente tem em seu organograma um setor dedicado ao planejamento e realização dessas ações, cumprindo a missão de expandir sua atuação, diversificar as linguagens da divulgação científica, interiorizar as ações e dar acesso a novos públicos [Souza Gonzalez, Silva et al., 2019].

As frentes de formação apresentadas estão embasadas teórico-metodologicamente na perspectiva político-pedagógica que norteou a criação do MV e se adaptou/aperfeiçoou ao longo de sua história [Gomes, 2018, p. 78].

A proposta [pedagógica] pautou-se também nas diretrizes orientadoras que definem a abordagem histórica, multi e transdisciplinar dos conteúdos, apresentados por meio de diversificados recursos e linguagens, e que preconizam a perspectiva pedagógica construtivista na formulação, desenvolvimento e avaliação das atividades.

O MV, em sua constituição, sempre buscou coadunar com os processos amplos de mudanças necessárias para a educação e para a sociedade. Na sua proposta político-pedagógica, afirma-se que os temas científicos abordados no MV assumiriam algumas perspectivas importantes [Museu da Vida, 2017, p. 34]:

O enfoque histórico como processo; a interatividade como metodologia, traduzida na capacidade de se colocar no lugar do outro e de se produzir atividades em que, como resultado, todos se modificam; a multidisciplinaridade, no sentido de somar e diversificar as visões sobre o mesmo objeto ou realidade. Levou-se também em conta que o sujeito (em suas dimensões sociais, culturais, epistemológicas e históricas) e o contexto da visita […]

O embasamento teórico do processo educativo do MV destaca os aspectos políticos/filosóficos que estão explícitos em seu Plano Museológico atualmente vigente (2017–2021) e, portanto, fundamentam igualmente os seus processos formativos. O MV tem como eixo a mediação humana. Essa é uma diferença fundamental da visita ao museu, porque a mediação humana colabora na produção de narrativas e de diálogos com diferentes públicos. O mediador propicia a interação entre as exposições, as ações educativas e o público. Assim, a curiosidade epistemológica típica do fazer científico torna-se o elemento central na visita ao MV. Esse processo remonta à abordagem sociointeracionista da construção do conhecimento humano, de autores como Jean Piaget [2013] e Lev Vygotsky [2005], segundo a qual a pergunta é o elemento central da formação.

Diante de tudo isso, os múltiplos processos formativos do MV seguem um princípio fundamental da Educação Libertadora de Paulo Freire, o do questionamento do saber [Freire e Shor, 1986, p. 22]:

O que é importante, o que é indispensável, é ser crítico. A crítica cria a disciplina intelectual necessária, fazendo pergunta ao que se lê, ao que se está escrito, ao livro, ao texto, ao conhecimento. Não devemos nos submeter ao texto, ser submissos diante do texto. A questão é brigar com o saber, apesar de amá-lo, não é? Entrar em conflito com o texto. Em última análise, é uma operação que exige muito.

Nas próximas linhas exemplifica-se a forma como se executam as propostas formativas.

2 “Programa de Iniciação à Divulgação e Popularização da Ciência” (PROPOP)

O PROPOP é o maior programa de formação do MV e está voltado exclusivamente para graduandos, contemplando as mais diferentes áreas de formação. Com foco no campo da educação não formal, busca dar formação para que os estudantes possam atuar no atendimento aos diferentes perfis de público nos espaços de visitação que compõem o MV. Fortemente influenciada pelos princípios da educação emancipatória de Paulo Freire, a formação dos jovens no MV contempla muito mais do que só um conteúdo programático e conceitual, sendo permeada por processos de reflexão crítica sobre os campos da educação, da saúde e da cultura em seu espectro mais ampliado. As bolsas têm duração de 12 meses, podendo ser prorrogadas por igual período. Com carga horária de 20 horas semanais, os bolsistas chegam a passar quase duas mil horas no museu ao longo de dois anos, uma carga horária bem expressiva que permite aos educadores do museu contribuir de maneira bem significativa na formação de futuros profissionais. Seu objetivo é oportunizar aos estudantes de graduação o envolvimento em projetos, metodologias, conhecimentos e práticas de educação não formal, divulgação da ciência (de acordo com documento interno MV). Para cumprir este e os demais objetivos específicos que se desdobram, o Serviço de Educação do MV, por meio da Seção de Formação, estrutura a formação dos bolsistas em três diferentes momentos:

  • Formação inicial — realizada quando do ingresso do bolsista no programa, a proposta passa por uma apresentação da instituição onde o bolsista está se inserindo ao mesmo tempo que já propõe reflexões teórico-práticas sobre museus de ciência e sua dimensão educativa. Nesta primeira formação, que tem duração média de uma semana, são abordados temas como mediação, públicos em museus de ciências e conceitos básicos sobre educação não formal e divulgação da ciência.
  • Formação específica — esta etapa é realizada diretamente nas áreas de visitação onde cada bolsista vai atuar. Inclui leitura e apresentação de artigos, estudo de roteiros e propostas educativas de exposições — quando houver esta especificidade, — oficinas temáticas e dinâmicas de mediação. Esta fase da formação se desdobra ao longo dos dois anos da bolsa, o que permite, inclusive, a participação dos bolsistas como colaboradores em processos de criação de novas atividades, bem como na elaboração dos roteiros de mediação para os diferentes tipos de público que o museu recebe. Esta formação é coordenada pela Seção de Ações Educativas para o Púbico com orientação dos educadores do Serviço de Educação lotados nesta subestrutura.
  • Formação complementar — oferecida durante todo o período da bolsa, caracteriza-se como uma formação continuada dos bolsistas do programa. Com encontros mensais, este é o momento de socialização de todos os bolsistas, que, no dia a dia, atuam em diferentes áreas físicas do museu. O objetivo aqui, para além desta congregação de todos, é proporcionar momentos de capacitação em temas mais gerais, mas que tenham relação direta com a formação destes futuros profissionais, que são graduandos de diferentes áreas de conhecimento. Os encontros contam com a participação de profissionais do próprio museu, da Fiocruz e de convidados de outas instituições. Também estão previstas nessa fase de formação algumas visitas técnicas a outros museus e instituições culturais.

Ter bolsistas bem formados é o que permite ao MV receber diariamente visitas com mediação humana na maior parte de sua programação. Por isso um grande diferencial deste programa é a dedicação de 20% da carga horária semanal para formação continuada dos bolsistas durante todo o período da bolsa. Destaca-se ainda, a multidisciplinaridade do programa, que conta com graduandos de várias áreas de conhecimento. São estes os dois motores do processo formativo do PROPOP, que permitem aos educadores preparar estes futuros mediadores para proporcionar aos visitantes do museu uma experiência reflexiva, mas que faça sentido para cada tipo de público recebido.

3 “Programa de Produção Cultural” (Pró-Cultural)

O Pró-Cultural é uma ação de educação não formal voltada para jovens estudantes do segundo e terceiro anos do ensino médio de escolas da rede pública do território em que está inserida a Fiocruz. Essa relação com os jovens remonta ao ano de sua inauguração. A prática do Curso de Formação de Monitores foi importante para subsidiar experiências práticas e teóricas desenvolvidas neste programa.

As ações formativas deste programa proporcionam oportunidades variadas de fruição cultural e debates políticos com os jovens, entrelaçando questões da cultura científica sob a ótica da divulgação da ciência e da promoção da saúde, a fim de valorizar a experimentação da produção cultural e a reflexão crítica sobre a realidade socioambiental dos territórios de favela da cidade do Rio de Janeiro.

Os objetivos mais gerais do programa são promover a inserção dos jovens no mundo do fazer cultural; estimular a reflexão e discussão sobre a realidade socioambiental do território onde se localiza a Fiocruz; valorizar a cultura científica, a divulgação da ciência e a promoção da saúde; contribuir para ampliação do capital cultural dos jovens do entorno da Fiocruz. Por sua vez, dentre os objetivos específicos estão oferecer noções de produção cultural; subsidiar a reflexão dos jovens sobre as relações entre expressões culturais e identidade, pluriculturalidade, democracia e a importância do acesso à cultura como parte da educação e do processo de formação cidadã; possibilitar a experiência no planejamento e realização de eventos e atividades culturais; oportunizar a participação de jovens em ações culturais no território em que está inserida a Fiocruz.

O programa, constituído de quatro módulos, tem a duração de oito meses. Os encontros ocorrem três vezes por semana sempre no turno vespertino e sua organização pedagógica conta com atividades dinâmicas, que incluem oficinas de comunicação e expressão, oficinas sobre reflexão das questões sociais, dinâmicas de grupo, esquetes teatrais, cinedebates, rodas de conversa, vivências, estágios, produções individuais e coletivas. Os conteúdos teóricos são apresentados por profissionais e/ou educadores que atuam como mediadores, instigando o debate e a reflexão crítica e dialógica, e têm como eixo central a realidade desses jovens.

Os módulos estão estruturados de forma não sequencial com flexibilidade para adaptar-se à realidade de cada grupo sem, no entanto, deixar cumprir com seus objetivos — Módulo 1: Quem sou eu? Identidade, Cidadania e Historicidade; Módulo 2: Noções e práticas em produção cultural; Módulo 3: Ciência e Cultura; Módulo 4: Estágio.

As oficinas de comunicação e expressão se inserem de forma transversal às atividades desenvolvidas.

4 A Formação para Ações Territorializadas e para o Acolhimento Inicial do Público

Para atender às especificidades existentes nesse museu tão diverso, seja do ponto de vista da distribuição espacial de suas áreas de visitação no principal campus da Fiocruz no Rio de Janeiro ou das ações realizadas extramuros na perspectiva da educação não formal, a formação precisa ser particularizada.

Considerando que a atividade é voltada para bolsistas de um museu de ciência, o objetivo da formação é proporcionar, por meio de atividades de campo, interações com o público e demais mediadores e estudos, o entendimento da viabilidade da comunicação científica em múltiplas ações, por diversas maneiras. Uma questão mais abrangente que deve permear a formação dos bolsistas que atuam nos territórios está relacionada com os processos de trabalho, que se iniciam nos contatos para agendamento da visitação e finalizam na avaliação, seja dos visitantes em relação à satisfação, seja dos próprios bolsistas sobre as ações territorializadas.

A prática formativa não deve prescindir do dialogismo, já que a mediação humana, que é a razão de ser dos programas de incorporação desses bolsistas, proporciona experiências que devem ser compartilhadas de forma a aprimorar processos e apontar novas oportunidades. A transformação que se espera do visitante ao ser impactado pela visita, deve ocorrer também nos bolsistas que participam de nossos programas de formação.

5 A Formação de Mediadores para as Ações Territorializadas

Inicialmente é necessário deixar claro o que se chama de Ações Territorializadas no MV. Conforme consta no seu Plano Museológico (2017–2021):

São consideradas ações Territorializadas (A.T) do Museu da Vida todas as atividades, oficinas, atuações em geral de divulgação da Ciência realizadas pela equipe do M.V. dirigidas à população do território no qual a Fiocruz está inserida e demais populações de territórios de favelas ou socialmente vulnerabilizados da cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana, realizadas fora do campus, integralmente ou parcialmente.

Apresentada como uma importante linha de trabalho do MV no que se refere a ações em territórios socialmente vulneráveis no Rio de Janeiro, a seleção de bolsistas se dá com base em critérios que vão além da pertinência das graduações — História, Geografia, Ciências Sociais e Pedagogia — para a vaga. É necessário que o candidato more em favelas ou tenha experiência em ações similares, de forma que a realidade local seja parte integrante do processo e não um impedimento. O graduando deve estar cursando entre 3o e 7o período.

O objetivo dessa linha de trabalho, além de fortalecer a Fiocruz como instituição de saúde, ciência e tecnologia, é estabelecer uma relação colaborativa entre o museu e a população de favelas e periferias do Rio de Janeiro. A equipe de Ações Territorializadas é formada por cinco bolsistas e dois profissionais, e o período de formação e atuação efetiva dos bolsistas totaliza nove meses, com 20 horas mensais.

A seleção dos bolsistas é divulgada por meio de uma convocação postada no site e nas redes sociais (Facebook e Instagram), e o currículo dos candidatos é recebido por e-mail. Foram enviados em torno de 700 currículos em 2020. Após análise preliminar, 46 passaram para entrevista, realizada por uma banca composta de pessoas do Núcleo de Desenvolvimento de Público (NUDP) — onde as Ações Territorializadas estão inseridas —, profissionais das Ações Territorializadas e integrantes da Seção de Formação do Serviço de Educação do MV.

O período de formação inicial compreende um mês, que se divide em estudos teóricos que apoiam os pilares, estabelecidos em sua criação, em 2015, e a prática na mediação que envolve principalmente a exposição “Manguinhos Território em Transe”, além de trabalhar conceitos básicos do campo de educação não formal, promoção da saúde e divulgação da ciência. A atividade deve atender a turmas do nível fundamental e médio de escolas públicas, bem como a públicos de unidades básicas de saúde, organizações não governamentais e movimentos sociais organizados.

Ao longo do período em que permanecem no estágio os jovens participam de encontro mensais de formação nos quais se abordam assuntos considerados estratégicos para a sua prática, tais como: os processos de construção e representação da favela e da periferia no Rio de Janeiro; raça, gênero, classe e suas desigualdades; determinantes sociais da saúde — a favela e a periferia sob a ótica do Sistema Único de Saúde (SUS); direitos e violações; território, participação social e cidadania.

Ao final de cada mês há uma avaliação com toda a equipe do que foi realizado e a cada visita um questionário é preenchido pelos bolsistas e pelos responsáveis da escola/grupo que participaram da atividade.

6 A Formação de Mediadores para o Agendamento e Acolhimento Inicial do MV (atuação no Centro de Recepção)

O Centro de Recepção abarca as atividades que estão diretamente ligadas a um dos primeiros contatos do visitante com o MV, que é a informação sobre a instituição, as atividades que estão sendo oferecidas e a efetivação do agendamento.

A equipe de estagiários do Centro de Recepção do MV é vinculada ao Programa de Estágio Curricular (PEC), que integra um edital geral da Fiocruz. São oferecidas sete vagas entre diferentes graduações e os candidatos devem estar cursando entre o 3o e o 6o período. A bolsa é de 30 horas semanais com duração de até dois anos. Essa duração permite um aprimoramento ao longo do tempo por meio da observação pelos profissionais durante as diversas fases do processo.

A fim de tornar o museu conhecido pelos bolsistas, na formação inicial desenvolvem-se dinâmicas e organizam-se visitas guiadas. Nesse momento, ainda, são apresentadas de forma geral a Fiocruz e a Casa Oswaldo Cruz, unidade a que se vincula o MV. Ainda nessa etapa, com apoio de outros setores do Serviço de Educação, promovem-se debates sobre conceitos relativos à divulgação da ciência, promoção da saúde e educação não formal.

A etapa de aprofundamento se inicia com o atendimento pessoal e telefônico do público interessado em obter informações sobre as atividades desenvolvidas pelo MV e segue com o agendamento. Esse processo permite que o estagiário se aproprie de práticas que incluem planejamento, organização e controle, que devem estar presentes em atividades realizadas individualmente ou em empresas ligadas aos setores onde existem oportunidades de trabalho.

Para um melhor entendimento do que cada atividade pode oferecer e como é realizada, os estagiários acompanham nos espaços cada uma delas com visitantes logo que o estágio se inicia e vão se atualizando ao longo do período.

Ao final de cada ano, os estagiários PEC apresentam um trabalho para os bolsistas com o mesmo vínculo. Esse trabalho é precedido pela descrição da missão do Núcleo de Desenvolvimento de Público e coordenado pelo Serviço de Gestão de Pessoas (SGP) da Casa de Oswaldo Cruz. A ideia é dar a conhecer o trabalho que cada um realiza em diferentes setores da unidade, além de desenvolverem relatórios semestrais para a Coordenação Geral de Gestão de Pessoas da Fiocruz.

7 A Formação dos Mediadores pelo Serviço de Itinerância do Museu da Vida

Atualmente, o Serviço de Itinerância é responsável pelas ações do museu itinerante Ciência Móvel — Arte e Ciência sobre Rodas — que percorre prioritariamente municípios da região Sudeste do Brasil — e por um portfólio com mais de 15 exposições itinerantes de diferentes tamanhos e complexidades, que cumprem itinerância em todo o território nacional. As ações — todas gratuitas para o público — são desenvolvidas em parceria com as instituições e/ou instâncias públicas que manifestam interesse em recebe-las, sejam elas escolas, Secretarias (Educação, Saúde, Cultura, Turismo, Ciência e Tecnologia, etc.), Universidades, outros Museus, Institutos Federais, entre outros (respeitando as especificidades de cada iniciativa). A formação dos mediadores que atuam nessas iniciativas é um trabalho colaborativo com educadores de outros setores do museu e tem algumas especificidades que serão apresentadas a seguir.

As exposições itinerantes de médio e grande porte contemplam aparatos interativos, jogos e outras atividades educativas e têm temáticas diversas, dentre as quais estão a história do Sistema Único de Saúde brasileiro, sustentabilidade e padrões de consumo, arboviroses, biodiversidade e promoção da saúde [Souza Gonzalez et al., 2019]. Na dinâmica da agenda de itinerância, as exposições são emprestadas sem custo de aluguel — mas mediante contrapartidas — às instituições solicitantes e podem ficar de alguns dias a vários meses em cada local, dependendo de suas características (tamanho, complexidade de montagem/desmontagem, público alcançado, entre outras).

Nesse modelo de atuação, os mediadores são selecionados pelos responsáveis nas cidades e a formação é feita por curadores e educadores do Serviço de Educação do MV, que se deslocam até as cidades para desenvolver o trabalho de formação in loco a partir de um planejamento liderado pelo Serviço de Itinerância. De forma geral, a programação inclui uma formação teórica que apresenta a Fiocruz e o MV, aspectos sobre educação museal, perspectivas de mediação e uma imersão nos objetivos e temas que a exposição em questão almeja discutir. A parte prática acontece dentro da exposição pronta e abrange as orientações para manipulação dos variados equipamentos e materiais, além de discutir a recepção e acolhimento dos diversos públicos e as possibilidades de abordagens nos módulos que compõem a exposição.

Ao longo do tempo, alguns desafios foram identificados, seja pelas características da instituição que solicita a exposição, seja pela própria natureza da itinerância [Soares et al., 2016]. Por um lado, quando a exposição é levada para um local que não tem por missão realizar ações como essa, nem sempre é fácil para a equipe local selecionar pessoas que tenham o perfil para atuar na mediação, ainda que a equipe do MV dê orientações sobre o que se espera do trabalho de um mediador. Por outro lado, quando as exposições são levadas para museus parceiros, é comum haver entraves para a definição da agenda de formação, pois os mediadores já têm suas escalas de trabalho divididas em diferentes dias e horários, o que muitas vezes inviabiliza a reunião da equipe completa e a participação integral dos diferentes momentos da ação de formação.

Ainda assim, é preciso reconhecer o alcance e a importância de enfrentar esses e outros obstáculos. É inegável o imenso potencial que a itinerância de exposições tem na formação de novos quadros de mediadores pelo país. Considerando-se as mais de 300 montagens de exposições itinerantes realizadas ao longo da sua história, o MV tem contribuído não só para que centenas de jovens — a maioria estudantes — tenham um primeiro contato com ações de divulgação da ciência, como para promover inclusão social e reduzir iniquidades.

Para o Ciência Móvel, o modelo de atuação e formação de mediadores é diferente. Seu acervo conta com exposições temáticas temporárias e uma exposição de longa duração que inclui módulos interativos, jogos, multimídias, vídeos-debates, modelos tridimensionais, planetário digital inflável, além de intervenções artísticas. Seus temas centrais são a vida e sua diversidade, a promoção da Saúde e a intervenção do homem sobre a vida e o ambiente [Soares, 2014].

O processo seletivo e a formação dos mediadores são liderados pela equipe do Serviço de Itinerância — com a colaboração do Serviço de Educação e outros educadores do MV — e acontece nas instalações do próprio do museu. Na programação, além das perspectivas teórico-conceituais sobre a história dos museus de ciência no mundo, sobre educação não formal, educação museal e mediação, são enfocados aspectos do desenvolvimento das iniciativas itinerantes nos cenários nacional e internacional, bem como a própria apresentação do que é a Fiocruz, a Casa de Oswaldo Cruz, o MV e o Ciência Móvel.

Em um segundo momento, são discutidos os diferentes módulos temáticos, os principais conceitos e uma apresentação dos conteúdos abordados nas diferentes atividades e exposições. Considerando que na dinâmica do Ciência Móvel os mediadores também participam das ações de montagem e desmontagem das atividades, uma parte importante da formação está voltada para a familiarização com a manipulação de balcões, estandes, porta-banners, equipamentos eletrônicos, operação do interior do semirreboque (que funciona como um cinema onde ocorrem vídeos-debates ao longo dos dias de atendimento ao público), embalagem, acondicionamento e organização dos materiais nas cases.

Nas ações desse museu itinerante, cerca de 20 mediadores viajam juntos para fazer o atendimento ao público e mergulham por 4–5 dias na intensidade desta efeméride. Os quartos das hospedagens são compartilhados por toda esta rica diversidade: idades, gostos, formações, história familiar, aspirações, orientação sexual, origens, humores, hábitos, hormônios e manias [Souza Gonzalez e Guimarães, 2019]. Por isso, foi preciso incluir no processo de formação atividades de quebra-gelo para tratar questões relacionadas à convivência, diversidade, trabalho em equipe e colaboração. Além disso, foi elaborado um módulo sobre ética na mediação, que ajuda na discussão sobre respeito, tolerância, atitudes, postura profissional e acolhimento dos variados públicos.

A heterogeneidade do público é um dos grandes desafios para a formação desses mediadores. Nas ações do Ciência Móvel, cerca de 300 pessoas visitam as atividades a cada 90 minutos. Isso significa que em um mesmo intervalo pode acontecer a visita simultânea de grupos de diferentes faixas etárias, camadas sociais, alguns não escolarizados, alguns com deficiência, grupos familiares e outros que participam com a sua escola. Por mais que as dinâmicas e debates planejados para o momento da formação levem em conta a preparação para a recepção desse público tão diverso, o mediador só fica confortável e ganha confiança à medida que atua e ganha experiência na função. É somente viagem após viagem, enfrentamento após enfrentamento, errando e acertando, que cada mediador vai construindo seu percurso, encontrando sua maneira de adaptar a linguagem e exercitar a escuta.

A cada abertura de processo seletivo para mediadores do Ciência Móvel, são recebidas mais de 500 inscrições. Os candidatos passam por análise de currículo, entrevistas, dinâmicas e a ação de formação (teórica e prática). Cerca de 60 pessoas concluem esse processo e passam a compor o banco de mediadores juntamente com os mais experientes já cadastrados, revezando-se a cada viagem. Atualmente, esse banco tem cerca de 150 mediadores cadastrados, um quantitativo bastante necessário, tendo em vista as diferentes áreas de formação e a disponibilidade para fazer viagens (muitos vão se desligando do banco de mediadores ao conseguirem um emprego formal ou pedem um reingresso após voltarem a ter disponibilidade para viajar). A disponibilidade para viajar representa um outro desafio para a formação dos mediadores que atuam no Ciência Móvel.

Por mais que sejam disponibilizados aos mediadores materiais educativos (apresentações, apostilas, links etc.) de todas as atividades e aparatos, o volume de informações e conteúdos é bastante expressivo, impossível de serem aprofundados e apropriados somente em uma formação inicial. Além disso, os novos mediadores são aos poucos introduzidos na dinâmica de viagens, para que possam ir se familiarizando com o processo e compartilhando experiências com os mais antigos. Essa organização pode acabar fazendo com que um mediador novo faça sua primeira viagem um tempo considerável depois da formação recebida. Ao mesmo tempo, é difícil uma logística de formação continuada/permanente para 150 pessoas, ainda mais com a agenda de viagens consecutivas da unidade móvel. Essa também é a dificuldade enfrentada todas as vezes que uma nova atividade é desenvolvida e passa a integrar o acervo do museu itinerante. A perspectiva é desenvolver um módulo on-line, que poderia sanar parte das questões apresentadas.

No entanto, ainda que existam pontos de fragilidade, merece destaque o quantitativo de novos mediadores que se formaram desde 2006, quando o Ciência Móvel foi criado. Muitos começaram a desempenhar suas funções ainda antes da graduação e permaneceram ao longo de todo o seu percurso acadêmico. Muitos fizeram pós-graduação, tornaram-se professores, viraram mediadores em museus parceiros, integraram projetos de pesquisa ou ainda criaram suas próprias iniciativas de divulgação científica. Muitos tornaram-se amigos.

No caso do Ciência Móvel, a imersão nas viagens, o convívio intenso, a oportunidade de conhecer territórios tão diversos, conversar com pessoas com histórias de vida tão diferentes tornam o ato de mediar ainda mais transformador. Participar de uma formação para mediadores de museus e desempenhar esse nobre papel é incontestavelmente uma experiência de abertura. É abrir-se ao novo, ao diálogo, às inquietações. É ver um novo caminho se abrir, repleto de desafios, deslocamentos e aprendizagens. É um exercício de construir futuros possíveis. Bolsistas e educadores descobrem que é necessário enxergar o outro para poder enxergarem melhor a si mesmos.

8 Considerações finais

O MV nos processos de formação, de modo geral, está voltado para o público de estudantes de nível superior e médio, bem como para professores formados ou na formação inicial no campo da educação em museus, da divulgação da ciência e da produção cultural. Abrangendo ações para a formação de mediadores nas exposições, e a concepção e o desenvolvimento de materiais educativos. Procura, ainda, oportunizar aos educandos reflexões e informações que possam propiciar a eles condições de interagir com público com deficiência permanente ou temporária e idosos.

Diante das várias frentes de trabalho, apresentou-se no presente artigo um panorama dos múltiplos processos conectados entre si e com a proposta político-pedagógica do museu. Assim, discorreu-se sobre os programas de formação existentes, as principais práticas formativas, a base teórica, os desafios, os potenciais. Permanece o firme propósito de querer saber cada vez mais.

Referências

Freire, P. e Shor, I. (1986). Medo e Ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro, Brazil: Paz e Terra.

Gomes, H. (2018). ‘Serviço de Educação do Museu da Vida: origem, caminhada e desafios’. Em: O lugar da educação nos museus. Ed. por Costa, A. F., Souza Rangel, A. M. de, Castro, F. S. R. de, Henze, I. A. M., Valente, M. E. A. e Jesus Soares, O. de. Rio de Janeiro, Brazil: Museu Castro Maya.

Museu da Vida (2017). Plano museológico do Museu da Vida (2017–2021). Rio de Janeiro, Brazil: Fundação Oswaldo Cruz/Casa de Oswaldo Cruz. URL: http://www.museudavida.fiocruz.br/images/educacao/planomuseologico_maio_museudavida_2018.pdf.

Piaget, J. (2013). A psicologia da inteligência. Petrópolis, Brazil: Editora Vozes.

Soares, M. (2014). ‘Inovando a comunicação da ciência em museu de ciências itinerante: o caso do ciência móvel — Vida e Saúde para todos’. Em: Anais do colóquio internacional tendências contemporâneas da comunicação científica. Florianópolis, Brazil.

Soares, M. et al. (2016). ‘Cada estrada tem seu barranco, cada viagem seu encanto: um debate sobre os museus de ciências e suas itinerâncias de exposições’. Em: Tecendo laços docentes entre ciência e culturas. Ed. por Lima-Tavares, D. et al. Curitiba, Brazil: Prismas, pp. 187–210.

Souza Gonzalez, A. C. de et al. (2019). ‘Saúde, Ciência, Cultura e Educação nos interiores do Brasil: os resultados do Serviço de Itinerância do Museu da Vida’. Em: 1o Conferência de Promoção da Saúde da Fiocruz. Rio de Janeiro, Brazil.

Souza Gonzalez, A. C. de e Guimarães, M. C. S. (2019). ‘As ciências da itinerância e a itinerância enquanto ciência’. Em: Anais do ENPEM. Rio de Janeiro, Brazil, pp. 959–964.

Souza Gonzalez, A. C. de, Silva, L. C. da, Damico, S. e Guimarães, M. C. (2019). ‘Compromisso social, interiorização e itinerância: a singularidade do museu da vida’. Em: Caderno de resumo do 3o Encontro da ABCMC (Museu do Amanhã, Rio de Janeiro, Brazil, 10–15 de setembro de 2018), pp. 200–203.

Vygotsky, L. S. (2005). Pensamento e linguagem. São Paulo, Brazil: Martins Fontes.

Autores

Alessandro Machado Franco Batista. Graduado em História pela Universidade Federal Fluminense e mestre em educação pela Universidade Federal Fluminense. Tecnologista em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Foi chefe do Serviço de Visitação e Atendimento ao Público do Museu da Vida (2013–2017). Atualmente coordena o projeto “Amigos do Museu da Vida” e integra a equipe de pesquisa do projeto “Educação e comunicação para o enfrentamento da Zika, demais arboviroses e doenças correlatas”. Desde 2017 é chefe do Museu da Vida da Fiocruz. E-mail: alessandro.batista@fiocruz.br.

Ana Carolina de Souza Gonzalez. Doutoranda em Informação e Comunicação em Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Mestre em Ciências Morfológicas pela UFRJ, especialista em Ensino de Ciências pelo IFRJ e graduada em Biomedicina pela UFRJ. Desde 2012 é Tecnologista em Saúde Pública da Fiocruz. Atualmente, coordena o Serviço de Itinerância do Museu da Vida e faz a coordenação geral do Projeto Arte e Ciência Sobre Rodas. Integra o grupo de pesquisa Educação, Museus de Ciências e seus Públicos. E-mail: ana.gonzalez@fiocruz.br.

Denyse Amorim de Oliveira. Mestre em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde pela Casa Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Possui graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e MBA em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas. Atua como Tecnologista em Saúde Pública da Fiocruz e ocupa a função de Coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento de Público do Museu da Vida. E-mail: denyse_amorim@yahoo.com.br.

Héliton da Silva Barros. Graduado em Ciências Biológicas pelo Instituto Metodista Izabela Hendrix e mestre em Ciência pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Tem experiência nas áreas de Educação em Saúde e Divulgação Científica. Foi coordenador do Núcleo de C&T da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais entre 2010 e 2012. Educador no Museu da Vida da Fiocruz desde 2012, coordenou o Serviço de Visitação e Atendimento ao Público nos anos de 2017 e 2018 e, atualmente, coordena o Serviço de Educação. E-mail: heliton.barros@fiocruz.br.

Como citar

Batista, A. M. F., Gonzalez, A. C., Oliveira, D. A. e Barros, H. S. (2020). ‘A formação de mediadores no Museu da Vida: múltiplas vivências’. JCOM – América Latina 03 (02), A05. https://doi.org/10.22323/3.03020205.